Why Everyone (Else) Is a Hypocrite: Evolution and the Modular Mind
Neste livro, o autor sugere que a melhor forma de entender a mente é pensar que ela é composta de ‘módulos’, que funcionam mais ou menos de forma independente, pois seu desenvolvimento foi gradual diante das pressões adaptativas ao ambiente. Alguns ‘módulos’ possuem conexões entre si, mas mesmo essas conexões surgem apenas como resultado da seleção natural.
Em vários capítulos do livro, a ideia de ‘unidade’ da mente é desafiada. É apontado o discurso contraditório de perceber uma certa independência de vários processos mentais (comparados a ‘subrotinas’ de um programa de computador) ao mesmo tempo que se recorre à figura de uma ‘pessoa’, que estaria no ‘controle’ das ações cerebrais, sendo uma espécie de ‘cérebro dentro do cérebro’. As inconsistências de comportamento são melhores explicadas se nós ‘perdemos’ a ideia de uma unidade central de controle e, ao invés disso, imaginarmos vários ‘módulos’ que são ativados/desativados na presença de estímulos e cuja operação pode ser ou não notada pelos ‘módulos’ conscientes. Sim, a consciência é reduzida a uma propriedade de certos ‘módulos’, e não a uma propriedade especial do cérebro, embora o autor gaste menos tempo do que seria recomendável para discutir as pressões que levaram ao surgimento de um processo consciente. Talvez para um outro livro, quem sabe.
A psicologia possui uma infinidade de casos em que a pessoa parece ao mesmo tempo acreditar numa coisa ao invés de outra, parece agir contra os seus próprios interesses, etc. Para aqueles que acreditam na unidade do mental, a ideia de que possam existir várias pessoas dentro de uma mesma mente é paradoxal. Por isso os nomes reflexivos de auto-representação (self representation), auto-engano (self deception), controle próprio (self control) e interesse próprio (self interest). Mas o modelo apresentado aqui procura explicar esses fenômenos ao sugerir que se perca o ‘self’. Não existe um ‘self’, mas vários ‘módulos’ que são ativados/desativados diante da presença de certos estímulos.
É sugerido que a pessoa não se engana, mas muitas vezes o ‘módulo’ consciente não possui a informação que outros ‘módulos’ guardam para si. E por que ocorreria isso? No mundo social, crenças corretas nem sempre são a melhor adaptação. É possível que ser ‘estrategicamente errado’ seja mais benéfico. Por exemplo, se eu acredito que sou melhor do que sou realmente e ajo dessa forma, meu comportamento pode ser convincente o suficiente para que os outros se convençam de que tenho aquelas qualidades. E isso pode me ajudar na disputa por parceiros, sejam sexuais, empresariais ou de amizade.
Da mesma forma, o ‘controle próprio’ na verdade é simplesmente a reação dos módulos conscientes, que são capazes de planejar o futuro e, portanto, prever que diante de uma situação de tentação acabaremos por ceder aos ‘encantos’ oferecidos. Módulos específicos são ativados diante de recursos vantajosos para aumentar as chances de reprodução, por exemplo: calorias e sexo. Fugir dessas tentações é uma forma de evitar que se caiam nelas. Não é que a pessoa ‘perca’ o controle, mas sim que, diante daqueles estímulos, módulos próprios são ativados e ganham proeminência. O mesmo acontece com o interesse próprio: diante de certas situações, módulos que nos fazem ajudar alguém podem ser ativados, visto que foram selecionados pelo fato de que a ajuda agora gera uma ‘dívida de gratidão’ no futuro. Mas isso não significa que nós agimos de forma consciente nessa direção, mas sim que tais módulos foram desenvolvidos e selecionados pela vantagem reprodutiva que tal tipo de comportamento trouxe para os que procediam dessa forma.
Por último, o autor discute a inconsistência entre nossas intuições e nossos discursos morais. Talvez o discurso moral seja uma justificação a posteriori para intuições morais que foram selecionadas por um processo evolutivo, regras que garantiam vantagem reprodutiva para aqueles que a seguiam. Em particular, impor um comportamento aos demais pode nos trazer vantagens competitivas diante dos recursos e das características que possuímos. A hipocrisia citada no título se deve ao fato de que estaríamos melhor impondo um comportamento a todas as pessoas e, em particular, desviando dessa regra. A hipocrisia é benéfica para o indivíduo, mas pode fazer ruir o sistema moral. Não quer dizer que o indivíduo necessariamente minta, mas sim que existem módulos distintos em operação, um que condena o comportamento alheio e outro que ‘fomenta’ que persigamos aquele tipo de conduta.
Este é um livro muito interessante, informativo, provocativo, escrito numa linguagem simples e leve. Bem-humorado, o autor não se coloca numa posição de fazer grandes teorizações, mas sim em mostrar, de forma bem clara para o leigo, como a psicologia, em particular a psicologia evolutiva, ao jogar fora o modelo de mente unitária, pode explicar muito melhor as inconsistências do nosso comportamento. Altamente recomendável para aqueles que se interessam pelo estudo do comportamento humano e que querem uma visão atual, embora polêmica, a respeito da dinâmica do funcionamento da mente.
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