quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O mito da explosão populacional

Certas ideias se encontram tão enraizadas na cabeça do público que passam a ser vistas como verdades incontestáveis da mesma forma que o movimento de translação da Terra em torno do Sol. Volta e meia os temores de uma explosão populacional aterrorizam o noticiário, muito embora a ideia seja agora de que uma população excessiva utiliza os recursos de forma mais veloz do que a natureza é capaz de repô-los, levando a um esgotamento econômico inevitável.

Mas nos concentremos na tese original. Um crescimento econômico levaria a um aumento do número de filhos de forma tal que o excedente produzido fosse distribuído até o nível de subsistência. Podemos traduzir esse pensamento como a tese de estagnação da renda per capita: elevações da renda per capita levariam a uma explosão populacional tão ampla que levaria até mesmo a a uma redução dela, para abaixo do nível de subsistência. As fomes tratariam de eliminar o excedente populacional, levando novamente a renda per capita para o nível de subsistência.

A falha dessa tese é imaginar que o aumento populacional não leve a um posterior aumento da atividade econômica. Afinal, para que a pessoa sobreviva num ambiente de mercado, é preciso que os serviços que oferece sejam mais valiosos do que os serviços que adquire. Portanto, mesmo aquele que sobrevive apenas ao nível de subsistência aumenta o produto da economia. Não existe nenhuma razão para imaginar que as pessoas acrescidas ao contingente populacional sejam completamente inúteis.

Na verdade, basta que seja minimamente úteis para que possibilitem o aumento do produto. Afinal, os membros mais produtivos da sociedade podem terceirizar tarefas do dia a dia para os membros menos produtivos de forma a concentrar suas energias naquilo que lhes dá maior retorno. Ou seja, membros pouco produtivos possibilitam que ocorra uma maior especialização resultante da divisão do trabalho. Qualquer um pode limpar um banheiro, mas a pessoa pode utilizar esse tempo tanto para descansar e ter um trabalho mais eficiente, investir nas suas habilidades ou mesmo trabalhando efetivamente. Seja qual for a opção, ela paga o serviço terceirizado e ainda produz um excedente. E o contratado garante a sua subsistência.

É por isso que uma sociedade baseada na divisão ampla do trabalho é capaz de sustentar uma população cada vez mais crescente, sem que o mecanismo da fome precise ser invocado para eliminar o excedente populacional. Pelo contrário, enfrentamos o desafio de alimentar mais e mais pessoas. Desde que essas pessoas sejam economicamente ativas, não parece existir um impedimento real para que esse desafio não seja vencido.

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