quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

O lugar do amor na política

O amor enquanto palavra é traduzível de uma língua para outra, mas o conceito em torno desta palavra se modifica. A tradução de um termo implica em encontrar o termo equivalente em outro língua que cause no ouvinte a mesma idéia ou reação. Só que a idéia associada a uma palavra depende de quantas palavras rivais existam a se referir a tal idéia; há línguas mais ricas ou mais pobres para definir determinados objetos ou fenômenos(e as idéias que os representam). E a reação provocada por uma palavra depende, além do seu significado habitual, a ocasião na qual a mesma é utilizada, ou seja, depende tanto da biografia do ouvinte quanto do uso consagrado que os termos possuem. O uso consagrado se refere ao efeito pretendido pelo falante e a biografia define como o ouvinte reage. O falante pode dizer ‘você não deveria agir assim ao ouvir tal palavra’, supondo que o ouvinte tenha cometido um equívoco. Mas o próprio ouvinte pode julgar que, diante daquela palavra, ele reagiu de maneira apropriada. Esta é a diferença entre desconhecer as regras de etiqueta e não atribuir nenhum valor a elas.

Embora amor possa, portanto, abranger uma série de estados mentais, emocionais ou um conjunto determinado de hábitos, pretendo, neste ensaio, fazer algumas considerações em relação a uma idéia muito conhecida, ao mesmo tempo inspiradora e ridicularizada: o amor romântico. Tal amor se conecta com um movimento muito maior, que se expressa tanto nas artes quanto na filosofia, religião e mesmo política: o Romantismo. Interesso-me aqui pelo romantismo enquanto movimento político.

O Romantismo é comumente visto como um contraponto ao projeto do Iluminismo de reformar todas as instituições sociais segundo os ditames da Razão. Mas parece-me que o Romantismo é melhor entendido como irmão siamês do Iluminismo, no sentido de que ambos colocam o indivíduo como figura central da reflexão e da ação política. Diria ainda mais, o Romantismo ressalta o elemento subjetivista da individualidade, enquanto o Iluminismo tenta resgatar o seu caráter universal. Se o Iluminismo reina soberano no campo da reflexão política, o Romantismo abarca a maior parte manifestações práticas da ação política. Sem o Romantismo, o projeto do Iluminismo é estéril; sem o Iluminismo, o movimento romântico vaga sem rumo. É nesta tensão entre o agir sem reflexão e o pensar com hesitação que a política ocidental tem girado desde que a política tornou-se um campo de debate público.

Há uma certa divisão do trabalho político por conta da predileção da pessoa pelo Iluminismo ou para o Romantismo, que leva a um processo de autosseleção. As decisões são tomadas independentemente de serem consideradas pelos iluministas como sábias ou prudentes; basta que exista um grupo considerável e influente de pessoas que seja capaz de implementar o projeto pretendido para que a ação ocorra. E as reflexões políticas são feitas mesmo que os homens práticos ignorem por completo as conclusões dos filósofos ou as críticas que os mesmos fazem em relação ao que se faz na prática.

O agir é sempre um ato de reflexão incompleta. Não há um prazo suficientemente largo para que todas as considerações a respeito de uma tomada de decisão possam ser feitas, e nem possibilidade de avaliar e julgar os dados relativos ao problema. Toda ação é tomada levando em conta regras práticas que nos ajudam a decidir o que fazer diante de uma situação.

A reflexão é sempre um ato de ação postergada. As suas conclusões são válidas para qualquer tempo, ou seja, não se referem a uma situação específica, mas sim a uma situação padrão que, embora não se concretize, serve como ponto de referência para comparar as situações concretas. Só agimos diante de uma situação concreta e, como a reflexão se refere a uma situação abstrata, ela sozinha não pode ser motivadora de uma ação. Além de se referir a uma situação ideal, a reflexão é um processo que pode ser reproduzido por qualquer pessoa, enquanto o ato é sempre tomado por uma pessoa em particular. Ou seja, a reflexão é um processo reproduzível por qualquer ser racional a respeito de uma situação abstrata, enquanto a aça é uma atividade praticada por uma pessoa em particular diante de uma situação específica.

A relação entre o agir e a reflexão é complementar e contínua. A reflexão continua mesmo quando o agir é interrompido, e o agir pode continuar mesmo quando a reflexão, pelo menos a consciente, é suspensa.

Quando pensamos em como o agir e a reflexão se colocam em relação ao mesmo indivíduo, chegamos a um impasse. O agir é o ato mais subjetivo de afirmação de um indivíduo, é como ele se define e se diferencia diante dos outros. Embora a reflexão também seja um ato individual, ela possui um conteúdo objetivo que é reproduzível pelos demais indivíduos. É um ato de apelo universal, enquanto o agir só se coloca diante da biografia da pessoa.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Por que acadêmicos se importam com questões irrelevantes?

Acadêmicos se importam com questões irrelevantes na busca por paz de espírito. A realidade já é tão interpretada por aqueles que precisam agir diretamente nela que o senso comum acaba por permear pontos de vista firmes o suficiente para que idéias divergentes provoquem revolta extrema. Se você se concentra em questões irrelevantes, elas não geram nenhum tipo de revolta por parte das outras pessoas. Paz de espírito é valorizada por motivos pessoais e também por motivos intelectuais: é mais fácil produzir quando não se é interrompido por colocações idiotas a todo momento. Um assunto irrelevante seleciona um tipo melhor de pessoa e maximiza o volume de informações produtivas que a pessoa recebe. Quanto mais mundano um assunto, maior o volume dessas informações que nada acrescentam. A produção intelectual decai por ter que lidar com questionamentos cada vez mais desinteressantes.

Acadêmicos se isolam da realidade como forma de manter a sua sanidade mental e a sanidade de suas teorias, face as objeções feitas pelo senso comum. No longo prazo, o senso comum se modifica, inclusive pelas alterações marginais provocadas pelas teorizações irrelevantes. Então é melhor se concentrar nelas hoje do que atacar diretamente o senso comum.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Em defesa do simplismo

Ser simplista significa tentar explicar a realidade em termos menos do que suficientes do que aqueles necessários para alcançar uma explicação razoável. Ser simplista, parece, portanto, ser algo ruim. Mas, acredito eu, o simplismo é uma virtude.

E por que o simplismo é uma virtude? Simples (sem ironia): se partimos de uma teoria menos do que suficiente para explicar a realidade, somos forçados a preencher uma lacuna que é visível. Já uma teoria que é suficiente para explicar a realidade, não fica claro se isso ocorre por conta de uma coincidência ou de um motivo mais geral.

A objeção ao simplismo se dá por uma predileção pela complexidade. E por que isso? Novamente, a razão é simples: teorias complexas são de difícil entendimento e o mero esforço em entendê-las parece eliminar da conversa uma série de pessoas. Ou seja, a complexidade destaca a pessoa de todas as outras.

Além disso, a caracterização de uma teoria como simplista, sem apontar porque ela deve ser rejeitada, é meramente uma oposição estética e não intelectual.

O problema não é o simplismo, mas aderir a uma teoria simplista como se captasse a essência da realidade, ao invés de um mero chute que poderia ser alterado frente a novos dados.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Por que a definição de propriedade justa pela apropriação original é circular

Uma propriedade é justa se originalmente apropriada e passada de forma voluntária para outra pessoa. Mas nenhuma propriedade atual pode ser traçada até a apropriação original dos recursos. Alguns dizem que a propriedade atual deve ser mantida enquanto não existir prova de injustiça. Mas injustiça implica que o proprietário atual não é o proprietário justo. Portanto, a injustiça só pode ser reconhecida se pudermos reconhecer quando uma propriedade é justa. Só que não há prova objetiva da justiça de nenhuma propriedade atual. Então, não é possível gerar nenhuma prova de injustiça das propriedades atuais. Logo, a manutenção das propriedades atuais não pode ser julgada nem como justa nem injusta.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Conhecimento e política pública

O conjunto de crenças sustentado por uma pessoa possui origens heterogêneas. A missa do domingo, a aula de química, o artigo de jornal, o documentário da televisão, o livro do mês, etc. Acumulamos tanta informação a respeito do mundo e, mesmo assim, nunca parece ser suficiente. É impossível para uma pessoa verificar se tudo que aprendeu é verdadeiro.

Como as crenças gerais são formadas? Apesar das fontes diversas, o sistema educacional é fundamental, pelo menos nas sociedades modernas, para que o conhecimento seja padronizado. Mas isso ocorre em dois sentidos: o primeiro, de padronização ou alinhamento daquilo que é aprendido em idades mais baixas; o segundo, de produção e criação de novo conhecimento que é referendado pelos seus pares. Há um conhecimento especializado que é reproduzido na educação dos mais jovens.

A figura do livro-texto ensina aos alunos no que acreditar, mas não fornece as ferramentas para que eles alterem o conhecimento apreendido. Esse conhecimento social sedimentado continua sendo reproduzido e pouco é alterado pela educação superior, até porque a maioria não continua na academia, mas volta para a vida que tinham antes, com as outras fontes rivais de conhecimento.

Esperar que as pessoas possam ter uma opinião sólida a respeito dos assuntos políticos mais urgentes exigiria que elas possuissem a capacidade de mudar de opinião quando, no fundo, não possuem o conhecimento necessário para alterar sua posição a respeito dos assuntos importantes.

Por isso a discussão acaba por girar em torno da mudança de sentimentos e não de idéias. A crítica se foca na estética do argumento apresentado e não da sua validade. Por isso é tão comum atribuir motivos que levam alguém a defender um determinado ponto de vista, ao invés de testar a fertilidade em segui-lo.

Duas figuras retóricas se complementam e fecham o círculo. A primeira, do acadêmico sem alma. A segunda, do ignorante de bom coração. Segundo a conveniência do momento, o outro lado é qualificado como sendo um ou outro. Quando se perdem(ou não se compreendem) os argumentos, é mais fácil acusar o outro de não ter alma. É a revolta contra os postulados econômicos que limitam a 'inventividade' das decisões governamentais. Quando, por outro lado, uma posição é vista como correta, mas não temos defesa suficiente para ela, por não sermos especialistas, tentamos conquistar nossas adversários chamando-os de bem intencionados, mas ignorantes, ou, para pessoas menos educadas, de burros mesmo.

Curiosamente, os desastres políticos não acontecem por acadêmicos sem alma ou ignorantes de bom coração, mas sim por acadêmicos de bom coração e ignorantes sem alma. Estes estão pouco presentes na retórica política.

Os acadêmicos de bom coração acreditam que os seus princípios produzirão bom resultados e, por serem acadêmicos, muitas vezes descartam as críticas que sofrem como sendo fruto da ignorância. Mas, por terem paixão naquilo que defendem, também atacam a insensibilidade dos seus opositores.

Os ignorantes sem alma, por outro lado, ignoram os argumentos intelectuais por considerarem que os mesmos são animados por sentimentos sem valor. Se guiam pelo sentimento puro e simples e provocam estragos sem fim.

No fundo, ignorantes de bom coração são capazes de reconhecer a sua ignorância. E acadêmicos sem alma exploram com liberdade a conseqüência de suas idéias. O problema é quando o conhecimento é visto como fonte de salvação ou fruto da degeneração dos sentimentos.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

quando os jusnaturalistas aceitam o positivismo

Já li dezenas de artigos, ensaios e alguns livros defendendo o ponto de vista jusnaturalista, em particular o jusnaturalismo que prega o fim do Estado, seja por ele ser inerentemente injusto, seja por ser desnecessário, oneroso, corrupto e ineficiente. No entanto, percebo uma tendência curiosa nos jusnaturalistas anarquistas, que é a seguinte: achar que, pelo fato de existir Estado, ele precisa ser necessariamente totalitário.

E por que qualifico de curiosa essa tendência? Ora, pois é precisamente a idéia do positivismo mais rudimentar* achar que toda lei, toda regra de convívio social tem origem no decreto estatal, na ordem de comando do soberano em relação aos seus súditos. Se não houver relação de obediência, não há lei. Para existir lei, é preciso uma autoridade final que não possa ser questionada a respeito de suas decisões.

Por isso o contraponto entre positivistas e jusnaturalistas: a lei é esvaziada de seu sentido de justiça, afinal toda decisão estatal é soberana. O justo e injusto é fruto da decisão do tribunal. Não há avaliação externa por parte dos súditos.

MAS É PRECISAMENTE ESSA IDÉIA QUE OS JUSNATURALISTAS ANARQUISTAS TEM DE UMA SOCIEDADE ESTATISTA. Segundo eles, numa sociedade estatista, a decisão estatal é inquestionável, o justo e injusto é decidido pelo tribunal, e cabe aos súditos obedecerem.

O que os jusnaturalistas falham em perceber é que a ordem social existente não foi criada pelo Estado, mas sim que o Estado surgiu a partir de uma ordem social que o precede. E, para que exista alguma sustentação do seu poder, o Estado deve se submeter às normas sociais vigentes. É verdade que ele pode modificá-las, mas isso não significa que elas sejam efetivas meramente por decreto. A refutação simplória do positivismo se dá pelo simples fato de que um comando do soberano não se traduz, automaticamente, em realidade. Os súditos podem se recusar a obedecer. Para isso, os positivistas mais toscos defendem que, para uma ordem social ser mantida, somente o medo é instrumento eficaz. Como se a única forma de submissão do súdito à ordem social se desse por imposição, e não por vontade. E um dos critérios pela qual a autoridade estatal pode ser julgada é quanto à sua justiça.

Se há algum legado no jusnaturalismo, é a idéia de que a ordem social não precisa ser formada por um decreto do soberano, que há instrumentos que precedem (normas de conduta aceitas) e sucedem (formação de órgãos legislativos) a autoridade soberana. Acreditar que, a partir do momento em que existe Estado, este não se submete mais a nenhum controle é apontar para um risco que corremos, mas que não é absolutamente necessário.

Por isso a minha curiosidade de perceber como nossos jusnaturalistas anarquistas, ao defender as vantagens de uma 'ordem natural'**, acabem por acreditar que, se somarem o Estado a essa equação, a tal 'ordem natural' deixa de existir e a sociedade passa a ser fruto de mero capricho do soberano. Novamente, corremos esse risco, mas mesmo assim um Estado Totalitário nunca é absolutamente totalitário, sempre há um elemento de ordem social residual que foge ao controle do decreto oficial. Afinal, um decreto só tem força de lei se for obedecido e, para além da limitada e sempre arriscada ameaça física, a obediência envolve elementos que não podem ser previstos e nem controlados pelo soberano.

*o positivismo mais rudimentar é uma ilustração extremada de uma posição que, embora absurda, existe, ainda que poucas vezes seja apresentada como tanta simplicidade

**o que os antigos jusnaturalistas entendiam por 'ordem natural' foi melhor ilustrado por Hayek na sua idéia de 'ordem espontânea'. Ver 'Law, Legislation & Liberty'. vol. 1

terça-feira, 19 de outubro de 2010

LIBERTARI(ANI)SMO REDUX

1. Libertários defendem que a taxação, por ser involuntária, é injusta, portanto a manutenção do Estado é injusta, visto que só é possível através do recolhimento de impostos.

1.1 mas uma sociedade libertária também é involuntária, afinal temos, por um lado, (1) conjunto de ações que alguém pode ter vontade de executar e (2) conjunto de ações que são proibidas pelo código de conduta libertária. Não é fácil perceber que muitas ações voluntárias seriam repreendidas como contrárias ao libertarismo. Ou seja, numa sociedade libertária o indivíduo também é coagido a agir contra a sua própria vontade num determinado conjunto de ocasiões. Os libertários podem argumentar que as ocasiões delimitadas pelo libertarismo são as únicas compatíveis com a justiça, mas não podem argumentar que isso se deva por não trazer restrições à vontade individual. Pode até ser que o sistema social mais desejável seja aquele que imponha menos restrições à vontade individual, mas novamente isso é diferente de dizer que tal sistema não imponha nada.

2. Libertários argumentam que a propriedade se sustenta pela apropriação original de recursos, e que não se pode desrespeitar essa propriedade ‘naturalmente’ apropriada sem incorrer em injustiça; qualquer medida, portanto, que vise a restringir o controle individual dos recursos possuídos é injusta.

2.1 mas se a apropriação original é o critério único de garantia da propriedade legítima, uma propriedade atual só pode ser considerada justa se for mostrada como, desde o início dos tempos, ela foi passada de mãos em mãos, seja por troca, presente ou abandono, até os dias atuais. A posse justa só pode ser justa se pudermos apresentar, passo a passo, que sua história não envolve nenhuma injustiça.

2.1.1 alguns sugerem que a posse atual seja considerada justa desde que não haja nenhuma prova cabal de injustiça. Mas a prova cabal de injustiça implica em violar uma propriedade que é justa. A única propriedade que sabemos justa é aquela sobre recursos anteriormente não possuídos. Agora, a propriedade atual não apresenta nenhuma marca que a torne justa, podendo ser considerada como muitos recursos não ocupados ainda, valendo, portanto, a regra do primeiro ocupante. Mas essa regra do primeiro ocupante gera uma demanda de manutenção da propriedade que não se sustenta. Afinal, em qual momento foi decidido que os ocupantes atuais seriam os primeiros ocupantes e qualquer violação desses direitos seriam considerados como injustos? Ora, se não há nada que prove que os recursos eram justamente possuídos, como pode a violação dessa propriedade ser considerada como injusta? Só podemos alegar que direitos de propriedade atuais foram violados, mas não que esses direitos eram legítimos. Novamente, há vários argumentos a favor da manutenção da posse atual das propriedades, a saber: (1) gera segurança jurídica em relação ao usufruto das riquezas geradas através do comando de seu proprietário, ou seja, incentiva o indivíduo a usar o máximo dos recursos da melhor maneira possível; (2) preserva a paz social (redistribuir propriedade implica em violência ativa, ao invés da violência reativa de mantê-la; no primeiro caso, os atuais proprietários se voltam contra, enquanto que no segundo são a favor da mesma, o que acaba por ser mais eficiente e gerar menos atrito); ou seja, a manutenção dos atuais títulos de propriedade maximizam a riqueza produzida e minimizam a violência gerada na sociedade. Mas isso nada tem a ver com o suposto caráter ‘sagrado’ da propriedade

domingo, 3 de outubro de 2010

REFLEXÕES SOBRE A ELEIÇÃO

1.1. ‘como você pode votar NELE?’ é uma pergunta (retórica) comum em tempos de eleições. A nossa escolha exclui a possibilidade de legitimidade de outras escolhas, se há apenas um cargo em disputa.

1.2. embora seja verdade que escolhamos apenas um candidato, o fazemos pelas mais diferentes razões. Para ser eleito, um candidato precisa agregar o maior número possível de eleitores de forma a satisfazer as mais diferentes demandas que cada grupo eleitoral possui.

1.3. diferentes pessoas possuem diferentes razões e por isso demandam diferentes políticas. Faz parte da democracia que cada eleitor ou tipo de eleitor busque se importar mais do que alguns assuntos do que com outros.

1.4. é difícil dizer que exista uma escolha política que seja mais substancial do que outras escolhas rivais. Apontar um aspecto como mais relevante do que outro em reflete o nosso julgamento em relação a como decidir, mas não aponta necessariamente que outras pessoas em outras situações devam fazer o mesmo.

1.5. na verdade, a democracia necessita de avaliações rivais em relação a quais políticas são mais prioritárias, pois o risco marginal de perder votos de um tipo de eleitor leva o candidato a procurar se conformar a esse grupo que vota movido praticamente por uma única questão.

1.6. de fato, o voto de consciência limita até onde o político pode ir, delimitando o caminho no qual o seu governo pode elaborar as políticas que serão aplicadas.

1.7. de forma simétrica, o mesmo voto empurra o político para onde não pode escapar, pois sem apoiar aquele conjunto de políticas não é possível conseguir ser eleito.

1.8. uma eleição determina, portanto, que tipos de política devem ser evitadas e quais devem ser perseguidas, deixando a cargo do governo eleito como se mexer diante desse quadro.

1.9. mais importante do que a vitória de X ou Y é deixar claro que a vitória de X não significa que as demandas de quem votou em Y não importam. Há pontos de convergência e antagonismo entre X e Y, convergências e divergências que são unânimes ou ‘frágeis’.

1.10. um candidato pode se eleger com certas posições contrárias à maioria, desde que tenha posições suficientes para atrair um número considerável de votos em torno de si.

1.11. é importante também evitar que haja uma cisão irredutível entre o eleitorado de X e Y, caso contrário as demandas do candidato derrotado (por exemplo Y) podem passar a ser completamente desprezadas pelo candidato eleito (no caso X).

1.12. se ocorre tal cisão, a falha da comunicação faz com que o partido vitorioso passe a associar todas as demandas do partido derrotado com aquelas demandas particulares suas que atraem a antipatia da maioria, razão pela qual não conseguiu ser eleito.

1.13. se o partido vitorioso é bem sucedido nessa manobra, então a oposição perde sua força de crítica pontual, pois todo o seu discurso se viu associado ao que há de mais antipático ao eleitorado.

1.14. a vitória parcial de uma eleição pode, portanto, dar poder suficiente para que o partido vitorioso cale as divergências em relação a certos pontos do seu programa, quando consegue fazer com que a disputa eleitoral gire em torno de uma discussão em torno de um ponto que gere antagonismo inevitável (ao invés de uma questão na qual se possa chegar a um acordo).

1.15. cabe ao partido derrotado alertar para a falta de apoio que o partido vitorioso possui em relação a várias dimensões da política, de tal forma a pressionar para que este governe dentro daqueles limites ou, numa próxima eleição, que seja julgado por ter se afastado desses limites.

2.1 um voto informado é aquele que é capaz de avaliar as áreas tanto de convergência quanto de divergência que o eleitor possui em relação a cada candidato.

2.2 tal avaliação é apenas aproximada, visto que na área de atuação, fruto da indefinição que resulta entre o que o governo pode e aquilo que ele deve fazer, podem estar incluídas justamente as demandas que o eleitor considera como mais importantes.

2.3 é possível que tenhamos um contingente eleitoral que, diante de interesses muito divergentes dos da maioria, se sinta sem representação e ignorado.

2.4 mas a própria prática política pode tornar visível a importância de um tema que antes era visto apenas como assunto de gabinete e não de debate eleitoral.

2.5 da mesma forma, um tema político sempre presente pode, diante do consenso formado diante dele, se tornar completamente irrelevante.

2.6 embora existam flutuações quanto aos temas de maior relevância, há uma identidade política que se 'arrasta' ao longo da formação de consensos e introdução de novas questões.

2.7 a identidade política latente tenta reinterpretar o posicionamento diante de novas questões à luz de um discurso que já era aplicado em outras áreas, até mesmo de uma época anterior a certos consensos estabelecidos.

2.8 aliás, é natural que a qualificação do adversário como divergente do consenso seja utilizada, visto que o fato do adversário ser parte integrante do consenso reflete que tal consenso é visto como algo positivo.

2.9 associar o adversário a uma posição que é vista como 'fora do aceitável' é uma forma de excluí-lo das posições aceitáveis.

2.10 uma conversão tardia a um consenso não é crível diante do passado recente deste partido. Apenas a 'conversão prática', refletida nas ações tomadas por este partido fará com que ele se torne parte integrante deste consenso e visto como representante do mesmo.

3. uma mesma medida pode ser demandada por diferentes razões.

3.1 Razões distintas levam a um apoio de um conjunto diferente de medidas. A coincidência em torno de certas medidas não deve obscurecer a divergência existente em relação a outras.

3.2 Diante da aplicação de uma medida com amplo apoio, a rodada seguinte de projetos a serem implementados tenderá a apontar uma maior divergência do que na decisão anterior.

3.3 Isto ocorre pelo simples fato de que a coincidência inicial de apoio é dissolvida perante a análise de uma situação cujas motivações que antes eram de fundo agora ganham proeminência.

3.4 A aliança se mantém antes da implementação das medidas que a tornam sólida e tende a dissolver à medida que as divergências começam a vir à tona diante da necessidade de lidar com novos problemas.

3.5 A discussão de novos projetos pode levar a alianças entre partidos rivais, visto que anteriormente as mesmas razões poderiam levar ao apoio de medidas diferentes e, nessa nova rodada de decisões, aumenta a chance que as mesmas razões produzam a mesma demanda.

3.6 Grupos bem sucedidos em suas demandas podem se tornar obsoletos na próxima rodada de decisão se as suas razões não são bem fundamentadas ao demandar outras medidas em outros assuntos.

[continua?]

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Crônica de um desastre anunciado

Primeiro ela não acredita que você vá ligar de novo.

Depois reclama que você não liga em base diária.

Agora lhe diz que não se vêem com a freqüência necessária.

Logo adiante duvida que você realmente se importe com ela.

Em seguida reclama que você não a assume.

Por fim diz que não é boa o bastante pra você.

O próximo capítulo? Sei lá..

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Já olhei pra dentro de mim e vi um vazio. Não há nada lá, não há um ente escondido esperando ver a vida. Não há ninguém, não há sentimento, não há emoção, só incompeensão, dor e mágoa. Não uma dor com motivo, mas uma dor por não ver motivo em nada. Já não há lugar no qual eu queira estar. Até o suicídio é um ato de vontade no qual não me motivo. O que é meu não passa a ter valor por ser meu, enquanto não se justificar dentro de um quadro mais geral. A vontade individual sem ser mediada pela razão universal é mero capricho. Tudo passa e não me deixa marca. Às vezes sinto como se eu nunca tivesse vivido. E nas outras vezes é isso mesmo.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

poesia experimental número 1

não, não quero saber as boas novas do dia
ainda não digeri as velhas verdades de outrora
de quando tudo era lucidez
e tanto me iludia
por pensar que
um momento
sabendo assim
das coisas que vi a
dos mares que nh m
do sol que me tinha
da carne que me prendia
e me sufocava
medeixavasemespaço













e o esforço que foi
trás pra tudo deixar pra
recomeçar de onde parei
de trazer tudo a tona
eu não queria mais tratar
das coisas que via por aí
=( da tristeza em todos os cantos =(
das esquinas que são encontro de ruas na solidão
das linhas paralelas que nunca se cortam
______________________________________________

e nunca se cruzam
não procriam
não fodem
______________________________________________
apenas sentem o cheiro
mais forte que o vômito
de quando a gente fala merda
e arrota arrogância

barulhos da cidade

Pessoas riem vazio. Como se pudessem engolir um mundo no qual não cabem. Entusiastas de prazeres intempestivos, guiados por uma luz que quase os cega – como enxergar se não usarem seus óculos escuros? E no fundo não enxergam de verdade, apenas o mundo filtrado pelos seus preconceitos e receios particulares. E assim vagam, sem direção, de calçada a calçada, ziguezagueando sem nunca avançar, andando em círculos sem ao menos perceber, ocupando todo lugar por nunca parar em nenhum. Nada do que vivem é proveitoso. Tudo que criam é fruto do ócio – e o que é o ócio senão a falta do dever? Não este imposto pelos demais, sempre um fardo, mas aquele que se escolhe abraçar. Mas como abraçar algo que é maior do que você? Por isso riem, vazio, e se tornam vazias, ocas de vontade, entupidas pelo tédio, com a vontade irresistível de matar(o tempo) para suprimir o medo inconsolável de morrer.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Civilização ou barbárie?

"A maioria dos brasileiros já apanhou dos pais, já bateu nos filhos e é contra o projeto de lei do governo federal que proíbe palmadas, beliscões e castigos físicos em crianças, conforme pesquisa feita pelo Datafolha, publicada nesta segunda-feira (26) pela Folha".

Estes dados não são aleatórios, apenas demonstra que um ciclo de violência se perpetua através das gerações. Quem apanhou quando criança passa a achar normal bater em seus filhos, muito embora ele, enquanto adulto, se recuse a aceitar que qualquer um bata nele. A normalização do abuso torna-se mais fácil quando se dá à vítima a chance de ser futuro algoz; neste cenário as crianças não tem voz, e os adultos que falam por elas não são os que apanham mas sim os que batem.

"72% disseram ter sofrido castigo físico -- 16% afirmaram que isso acontecia sempre."

A rotina do abuso, a violência como norma de conduta, o sacrifício do corpo como forma de controlar e subjugar a mente - não precisamos da figura do trauma para que se estabeleça o abuso. A marca fica na forma como as relações humanas são entendidas e negociadas. Um tapa no filho de vez em quando, um bofetão na mulher que não cala a boca, um soco no avô que não fica quieto...a violência é justificada em situações extremas, quando deveria ser justificada apenas como forma de coibir ou reagir à própria violência. Relações de dominação são assentadas pelo uso ocasional, justificado e 'moderado' da força.

Não é coincidência que neste mesmo país a prática do trote universitário seja ainda uma tradição, uma forma de 'integrar' os 'novatos' dentro de um grupo fechado. Este mesmo 'novato' se tornará um 'veterano' e aplicará as mesmas práticas humilhantes aos futuros 'novatos'. E o ciclo de violência e as relações de dominação se perpetuam.Os homens não se tratam como iguais, mas de acordo com o seu status associado que lhe dão poderes especiais sem qualquer freio ou contrapartida.

O Presidente Lula é tosco, grosso, sem tato. Mas ao menos compreende que o abuso ao qual uma criança é submetida é errado em vários níveis, pois é apenas uma forma de satisfazer inclinações sádicas indizíveis dos pais, de violentar o corpo alheio, de deixar marcas de caráter ao normalizar o uso ocasional da violência e, nos casos mais extremos, de deixar graves traumas. Não compreender isso e reduzir a questão toda a frescura é dar de ombros ao sofrimento alheio e, pior, em não respeitar os limites da individualidade humana; por menos importantes que pareçam aos seus violadores, a voz que importa é a das vítimas, e no caso elas não possuem nenhuma. Esta lei é mais do que bem vinda. A autoridade dos pais é uma questão de conveniência para o bem-estar dos seus filhos, dependente de cumprir com certas funções definidas pela comunidade.

Se não protegemos nossas crianças dos seus pais, vamos protegê-las de quem? É justamente no lar, em que passam a maior parte do tempo, é que devemos lhes dar maiores garantias e 'voz', através da lei, para que se possam fazer respeitar. Esta lei é um grande avanço. Fora dela, temos a barbárie.

sábado, 24 de julho de 2010

O paradoxo do liberalismo

O paradoxo do liberalismo é o seguinte: diante de uma herança antiliberal, o receituário liberal, embora propicie uma melhora de vida e uma mobilidade social nunca antes alcançada, recomenda que se respeitem as diferenças de status e hierárquicas oriundas do período pré-liberal, se as mesmas resistem ao teste do mercado. A argumentação é simples: para corrigir a herança pré-liberal, precisaríamos utilizar elementos claramente antiliberais, e estes mesmos elementos diminuiriam o grau de liberalismo desta sociedade. Ao mesmo tempo, não utilizar tais instrumentos perpetua uma distorção social que não é um resultado 'natural' de uma sociedade livre. Ou seja, se conserva a moldura antiliberal para que um quadro liberal possa ser pintado.

Mas quantas gerações são precisas para que tal quadro possa surgir? Nesse meio tempo, os elementos antiliberais herdados podem se tornar insuportáveis para os que sofrem com os mesmos. A alternativa que resta ao liberal, na sua defesa dos elementos liberais da sociedade, é mostrar como tais elementos ainda convivem com outros de hierarquia e status impostos, como por exemplo a renda auferida por empresários nacionais protegidos da concorrência internacional. Este, aliás, é outro ponto paradoxal do liberalismo: defender a correção moral dos resultados de mercado, ou seja, a posição entre ricos e pobres, quando a presença de uma série de intervenções governamentais dificulta que os indivíduos aproveitem oportunidades que, em outro caso, estariam abertas a eles. A defesa da figura do rico, que é impedido pelo Estado de ganhar dinheiro, obscureceu a defesa dos que poderiam ser ricos, e esqueceu que esses ricos obtiveram suas riquezas justamente operando num mercado cheio de intervenções que impediram uma ação efetiva de competidores potenciais.

post scriptum:

Toda doutrina política resulta em paradoxos, pois existe uma tensão irremediável entre a formulação prática da mesma e os resultados herdados e gerados por ela. Somente uma doutrina que se proponha a criar uma sociedade a partir do nada, ou seja, uma utopia, não precisa lidar com situações paradoxais, pois tudo é planejado de forma tal que situações conflituosas não possam emergir. O utópico pergunta primeiro se uma sociedade é desejável e somente depois se é exqüível; mas este nunca pergunta de verdade, pois apenas calcula se vale a pena implementá-la agora ou daqui a algum tempo, sem questionar de maneira profunda se a própria idéia de criar uma sociedade artificial pode ser racionalmente implementada, no sentido de poder ser posteriormente criticada.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

breves questões sobre o aquecimento global

(a)considerando uma quantidade fixa de gases estufa +

(b)a contribuição humana a cada ano que

(c)é maior do que aquela que pode ser anulada por fenômenos naturais

(d)os efeitos destrutivos do aquecimento global são inevitáveis

(e)se há qualquer tipo de emissão acima daquela que poderia ser revertida

(f)deve-se perguntar se a redução da emissão de gases estufa

(g)possui um efeito positivo marginal descrescente

(h)ou seja, diante da poluição anterior, a redução marginal da poluição

(i)possui efeitos positivos mínimos

(j)e considerando que a poluição continuará a ser além da absorvida naturalmente

(k)estamos apenas trocando os efeitos maléficos do aquecimento global num presente mais próximo

(l)para um num futuro não muito distante

(m)ou seja, no fim os efeitos do aquecimento global são inevitáveis

(n)a não ser que se sacrifique o crescimento econômico

(o)cujos efeitos presentes de curto prazo são muito mais relevantes

domingo, 24 de janeiro de 2010

'Where the wild things are'

'Where the wild things are' é um filme infantil diferente. Não se trata de um filme voltado apenas para as crianças, que seria muito bobo para quem tivesse uma idade mais avançada, seja pela sua história inverossímil ou pelos apelos visuais e sonoros manjados e pouco atrativos para quem possui uma percepção mais apurada, mas que pode ser assistido tranquilamente por adultos. Só que os elementos atrativos para um público mais velho não são toques maliciosos que, embora incompreendidos pelos jovens, e muitas vezes por causa disso, despertam um sentimento de sagacidade no público adulto que se entretem com os mesmos(caso clássico de Shrek, por exemplo). É um filme que apela à criança que um dia qualquer um de nós já foi, e que permanece dentro da gente de certa forma e nos acompanha por toda a vida. O filme é infantil porque é todo baseado no sonho de uma criança, nao é uma historia convencional infantilizada. Não é uma história de adultos adaptada ao mundo infantil, é uma história contada por uma criança. Quem quer que tenha algum dia criado um universo mágico que servia de refúgio perante um mundo ainda bastante incompreendido, se identificará com o filme e será capturado por este maravilhoso sonho.

sábado, 23 de janeiro de 2010

'Up In The Air'

Este filme recebeu a péssima tradução 'Amor Sem Escalas', na tentativa de ser vendido como uma comédia romântica, quando de fato é, em sua essência, um filme anti-romântico. A idéia de um amor sem escalas nos passa a imagem de um amor que não conhece fronteiras. Quando na verdade o que não tem fronteiras é a solidão vivida pelo personagem de George Clooney, que passa a vida literalmente nas nuvens. Sempre se conectando de um ponto a outro sem nunca se conectar com ninguém, ajudando na dispensa de funcionários e mantendo uma atitude zen e serena em relação a formar qualquer laço afetivo com alguém. Há no personagem um certo tom de cinismo quanto ao que pode ser realizado na vida, até o momento no qual a solidão em que se encontra parece ter deixado que todos os seus laços se perdessem. Mas nunca é tarde para tentar reconstruí-los. Será? O trunfo do filme é não oferecer nenhuma redenção ao personagem principal. Ou seja, o seu distanciamento não é julgado como sendo negativo ou impróprio, embora em algum momento do filme haja uma auto-reflexão em relação ao destino que ele mesmo sentenciou em sua vida. Em suma, o filme não celebra a vida solitária, nem tampouco aponta como solução ir com a maré, mas mostra como as relações humanas, embora complicadas e difíceis, não devem ser por isso evitadas, mas sim construídas sem que a gente se perca nelas. Nossa realização pessoal deve depender, sempre, em parte, daquilo que podemos por nós mesmos construir, sem que isto implique excluir as pessoas da nossa vida.

‘Birth of a Nation’

Filme controverso, lançado em 1915. Pode-se dizer que a primeira parte, que se passa durante a Guerra Civil, é subjetivamente racista enquanto a segunda parte, que se desenrola durante o período da reconstrução é objetivamente racista. Mesmo a primeira parte pode ser salva pois, ao abordar o lado sulista, em nenhum momento o argumento racista é invocado, mas sim manifestado através da defesa do direito de secessão que, muito embora talvez seja defendido apenas como instrumento para manutenção da escravidão (se alguém propusesse aos líderes sulistas, por exemplo, o direito de secessão de seus escravos negros, eles certamente ficariam horrorizados), não é assim efetivamente entendido por seus personagens.

A segunda parte é objetivamente racista por pintar em tons positivos as ações da KKK, e por pintar um retrato cruel dos afro-descendentes. Mas mesmo essa leitura pode ser relativizada, pois ela faz sentido apenas quando confrontada com as conclusões historiográficas. Se entendermos que a ficção é uma zona de criação livre, onde o que talvez conte seja apenas a verossimilhança com a realidade (ou, numa interpretação menos estrita, exige-se apenas coerência dentro da história a ser contada, embora muitos autores também se utilizem de imagens incoerentes, mas em geral como retrato da própria interpretação ou atos incoerentes dos seus personagens), a segunda parte pode ser entendida tanto quanto uma descrição subjetiva do modo como a KKK via as coisas quanto como uma distopia racial ou história alternativa.

Como descrição subjetiva, a segunda parte faz mais do que sentido, mesmo que no fim concordemos que não se passa de um delírio. Como distopia racial, a história torna-se mais interessante; afinal o século passado foi marcado por revoluções feitas em nome dos oprimidos que acabaram por constituir uma nova classe governante e intolerante. Mais de uma vez é referido no filme a ascensão de uma ‘nova aristocracia’, o que parece indicar que, no fim, não há nada intrínseco em nenhuma das raças que explique uma situação de exploração, mas sim a estrutura institucional na qual as raças se relacionam. Tal ponto de vista, porém, perde força quando vemos que, no fim, a única forma dos brancos restaurarem a ordem é, de certa forma, limando os negros de sua voz. Ou tal desfecho pode ser entendido como uma visão muito pessimista das questões de raça (afinal, o pessimismo em relação à possibilidade de mudança de uma situação não significa que não se deseje que ela ocorra ou que não valha a pena se esforçar para conseguir que ela venha a existir).

Além de questões polêmicas quanto à interpretação de sua mensagem ou motivação (em relação à motivação, não tenho muitas dúvidas que há sim um componente racista; apenas sugiro que a interpretação do filme pode ser dissociada da motivação do autor, afinal a obra se torna uma entidade independente dos propósitos que estão na cabeça do sujeito; a motivação do artista pode, algumas vezes, nos ajudar a entender melhor sua obra, ao indicar elementos que antes ignorávamos ou que entendíamos sob outro ângulo; mas é apenas mais uma interpretação concorrente, cuja única vantagem em relação às demais é que o autor, por ser criador da obra em questão, pode nos mostrar exatamente porque construiu as coisas daquele jeito; a sua interpretação precede a criação, possibilitando que ele molde a obra até que ele a julgue como correspondendo à sua intenção; mas, após o seu término, a obra não é mais dele, e suas intenções podem ser revelar fracassadas e distantes do efeito pretendido; se apenas a motivação bastasse para a criação artística, não precisaríamos mais fabricar artefatos, apenas gravar as intenções dos autores, reproduzi-las e imaginar a sua realização na nossa própria cabeça), é um filme que surpreende, tanto pela sua carga dramática quanto pelo seu uso magistral da música, que pontua brilhantemente o decorrer da história. Incrível como, ainda na sua infância, o cinema já apresente tantos elementos.

Pode-se dizer que não há muita inovação na arte de se fazer cinema nos quase 100 anos que se seguiram a este filme. Em termos de realizações técnicas, o sentimento de grandiosidade transmitido pelas cenas de batalha, e os momentos de tensão provocados por perseguições e emboscadas nada devem às sensações causadas pelo uso da tecnologia em 3-d de Avatar, por exemplo. A imersão é a mesma, eu diria, apenas mudaram os meios necessários para que ela ocorra. Talvez pela minha sensibilidade maior em relação aos sons, mais do que a imagens, a trilha sonora deste filme mudo tenha me chamado mais atenção do que as cores vivas do feito tecnologicamente impecável do Cameron.