O paradoxo do liberalismo é o seguinte: diante de uma herança antiliberal, o receituário liberal, embora propicie uma melhora de vida e uma mobilidade social nunca antes alcançada, recomenda que se respeitem as diferenças de status e hierárquicas oriundas do período pré-liberal, se as mesmas resistem ao teste do mercado. A argumentação é simples: para corrigir a herança pré-liberal, precisaríamos utilizar elementos claramente antiliberais, e estes mesmos elementos diminuiriam o grau de liberalismo desta sociedade. Ao mesmo tempo, não utilizar tais instrumentos perpetua uma distorção social que não é um resultado 'natural' de uma sociedade livre. Ou seja, se conserva a moldura antiliberal para que um quadro liberal possa ser pintado.
Mas quantas gerações são precisas para que tal quadro possa surgir? Nesse meio tempo, os elementos antiliberais herdados podem se tornar insuportáveis para os que sofrem com os mesmos. A alternativa que resta ao liberal, na sua defesa dos elementos liberais da sociedade, é mostrar como tais elementos ainda convivem com outros de hierarquia e status impostos, como por exemplo a renda auferida por empresários nacionais protegidos da concorrência internacional. Este, aliás, é outro ponto paradoxal do liberalismo: defender a correção moral dos resultados de mercado, ou seja, a posição entre ricos e pobres, quando a presença de uma série de intervenções governamentais dificulta que os indivíduos aproveitem oportunidades que, em outro caso, estariam abertas a eles. A defesa da figura do rico, que é impedido pelo Estado de ganhar dinheiro, obscureceu a defesa dos que poderiam ser ricos, e esqueceu que esses ricos obtiveram suas riquezas justamente operando num mercado cheio de intervenções que impediram uma ação efetiva de competidores potenciais.
post scriptum:
Toda doutrina política resulta em paradoxos, pois existe uma tensão irremediável entre a formulação prática da mesma e os resultados herdados e gerados por ela. Somente uma doutrina que se proponha a criar uma sociedade a partir do nada, ou seja, uma utopia, não precisa lidar com situações paradoxais, pois tudo é planejado de forma tal que situações conflituosas não possam emergir. O utópico pergunta primeiro se uma sociedade é desejável e somente depois se é exqüível; mas este nunca pergunta de verdade, pois apenas calcula se vale a pena implementá-la agora ou daqui a algum tempo, sem questionar de maneira profunda se a própria idéia de criar uma sociedade artificial pode ser racionalmente implementada, no sentido de poder ser posteriormente criticada.
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