1.1. ‘como você pode votar NELE?’ é uma pergunta (retórica) comum em tempos de eleições. A nossa escolha exclui a possibilidade de legitimidade de outras escolhas, se há apenas um cargo em disputa.
1.2. embora seja verdade que escolhamos apenas um candidato, o fazemos pelas mais diferentes razões. Para ser eleito, um candidato precisa agregar o maior número possível de eleitores de forma a satisfazer as mais diferentes demandas que cada grupo eleitoral possui.
1.3. diferentes pessoas possuem diferentes razões e por isso demandam diferentes políticas. Faz parte da democracia que cada eleitor ou tipo de eleitor busque se importar mais do que alguns assuntos do que com outros.
1.4. é difícil dizer que exista uma escolha política que seja mais substancial do que outras escolhas rivais. Apontar um aspecto como mais relevante do que outro em reflete o nosso julgamento em relação a como decidir, mas não aponta necessariamente que outras pessoas em outras situações devam fazer o mesmo.
1.5. na verdade, a democracia necessita de avaliações rivais em relação a quais políticas são mais prioritárias, pois o risco marginal de perder votos de um tipo de eleitor leva o candidato a procurar se conformar a esse grupo que vota movido praticamente por uma única questão.
1.6. de fato, o voto de consciência limita até onde o político pode ir, delimitando o caminho no qual o seu governo pode elaborar as políticas que serão aplicadas.
1.7. de forma simétrica, o mesmo voto empurra o político para onde não pode escapar, pois sem apoiar aquele conjunto de políticas não é possível conseguir ser eleito.
1.8. uma eleição determina, portanto, que tipos de política devem ser evitadas e quais devem ser perseguidas, deixando a cargo do governo eleito como se mexer diante desse quadro.
1.9. mais importante do que a vitória de X ou Y é deixar claro que a vitória de X não significa que as demandas de quem votou em Y não importam. Há pontos de convergência e antagonismo entre X e Y, convergências e divergências que são unânimes ou ‘frágeis’.
1.10. um candidato pode se eleger com certas posições contrárias à maioria, desde que tenha posições suficientes para atrair um número considerável de votos em torno de si.
1.11. é importante também evitar que haja uma cisão irredutível entre o eleitorado de X e Y, caso contrário as demandas do candidato derrotado (por exemplo Y) podem passar a ser completamente desprezadas pelo candidato eleito (no caso X).
1.12. se ocorre tal cisão, a falha da comunicação faz com que o partido vitorioso passe a associar todas as demandas do partido derrotado com aquelas demandas particulares suas que atraem a antipatia da maioria, razão pela qual não conseguiu ser eleito.
1.13. se o partido vitorioso é bem sucedido nessa manobra, então a oposição perde sua força de crítica pontual, pois todo o seu discurso se viu associado ao que há de mais antipático ao eleitorado.
1.14. a vitória parcial de uma eleição pode, portanto, dar poder suficiente para que o partido vitorioso cale as divergências em relação a certos pontos do seu programa, quando consegue fazer com que a disputa eleitoral gire em torno de uma discussão em torno de um ponto que gere antagonismo inevitável (ao invés de uma questão na qual se possa chegar a um acordo).
1.15. cabe ao partido derrotado alertar para a falta de apoio que o partido vitorioso possui em relação a várias dimensões da política, de tal forma a pressionar para que este governe dentro daqueles limites ou, numa próxima eleição, que seja julgado por ter se afastado desses limites.
2.1 um voto informado é aquele que é capaz de avaliar as áreas tanto de convergência quanto de divergência que o eleitor possui em relação a cada candidato.
2.2 tal avaliação é apenas aproximada, visto que na área de atuação, fruto da indefinição que resulta entre o que o governo pode e aquilo que ele deve fazer, podem estar incluídas justamente as demandas que o eleitor considera como mais importantes.
2.3 é possível que tenhamos um contingente eleitoral que, diante de interesses muito divergentes dos da maioria, se sinta sem representação e ignorado.
2.4 mas a própria prática política pode tornar visível a importância de um tema que antes era visto apenas como assunto de gabinete e não de debate eleitoral.
2.5 da mesma forma, um tema político sempre presente pode, diante do consenso formado diante dele, se tornar completamente irrelevante.
2.6 embora existam flutuações quanto aos temas de maior relevância, há uma identidade política que se 'arrasta' ao longo da formação de consensos e introdução de novas questões.
2.7 a identidade política latente tenta reinterpretar o posicionamento diante de novas questões à luz de um discurso que já era aplicado em outras áreas, até mesmo de uma época anterior a certos consensos estabelecidos.
2.8 aliás, é natural que a qualificação do adversário como divergente do consenso seja utilizada, visto que o fato do adversário ser parte integrante do consenso reflete que tal consenso é visto como algo positivo.
2.9 associar o adversário a uma posição que é vista como 'fora do aceitável' é uma forma de excluí-lo das posições aceitáveis.
2.10 uma conversão tardia a um consenso não é crível diante do passado recente deste partido. Apenas a 'conversão prática', refletida nas ações tomadas por este partido fará com que ele se torne parte integrante deste consenso e visto como representante do mesmo.
3. uma mesma medida pode ser demandada por diferentes razões.
3.1 Razões distintas levam a um apoio de um conjunto diferente de medidas. A coincidência em torno de certas medidas não deve obscurecer a divergência existente em relação a outras.
3.2 Diante da aplicação de uma medida com amplo apoio, a rodada seguinte de projetos a serem implementados tenderá a apontar uma maior divergência do que na decisão anterior.
3.3 Isto ocorre pelo simples fato de que a coincidência inicial de apoio é dissolvida perante a análise de uma situação cujas motivações que antes eram de fundo agora ganham proeminência.
3.4 A aliança se mantém antes da implementação das medidas que a tornam sólida e tende a dissolver à medida que as divergências começam a vir à tona diante da necessidade de lidar com novos problemas.
3.5 A discussão de novos projetos pode levar a alianças entre partidos rivais, visto que anteriormente as mesmas razões poderiam levar ao apoio de medidas diferentes e, nessa nova rodada de decisões, aumenta a chance que as mesmas razões produzam a mesma demanda.
3.6 Grupos bem sucedidos em suas demandas podem se tornar obsoletos na próxima rodada de decisão se as suas razões não são bem fundamentadas ao demandar outras medidas em outros assuntos.
[continua?]
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