"A maioria dos brasileiros já apanhou dos pais, já bateu nos filhos e é contra o projeto de lei do governo federal que proíbe palmadas, beliscões e castigos físicos em crianças, conforme pesquisa feita pelo Datafolha, publicada nesta segunda-feira (26) pela Folha".
Estes dados não são aleatórios, apenas demonstra que um ciclo de violência se perpetua através das gerações. Quem apanhou quando criança passa a achar normal bater em seus filhos, muito embora ele, enquanto adulto, se recuse a aceitar que qualquer um bata nele. A normalização do abuso torna-se mais fácil quando se dá à vítima a chance de ser futuro algoz; neste cenário as crianças não tem voz, e os adultos que falam por elas não são os que apanham mas sim os que batem.
"72% disseram ter sofrido castigo físico -- 16% afirmaram que isso acontecia sempre."
A rotina do abuso, a violência como norma de conduta, o sacrifício do corpo como forma de controlar e subjugar a mente - não precisamos da figura do trauma para que se estabeleça o abuso. A marca fica na forma como as relações humanas são entendidas e negociadas. Um tapa no filho de vez em quando, um bofetão na mulher que não cala a boca, um soco no avô que não fica quieto...a violência é justificada em situações extremas, quando deveria ser justificada apenas como forma de coibir ou reagir à própria violência. Relações de dominação são assentadas pelo uso ocasional, justificado e 'moderado' da força.
Não é coincidência que neste mesmo país a prática do trote universitário seja ainda uma tradição, uma forma de 'integrar' os 'novatos' dentro de um grupo fechado. Este mesmo 'novato' se tornará um 'veterano' e aplicará as mesmas práticas humilhantes aos futuros 'novatos'. E o ciclo de violência e as relações de dominação se perpetuam.Os homens não se tratam como iguais, mas de acordo com o seu status associado que lhe dão poderes especiais sem qualquer freio ou contrapartida.
O Presidente Lula é tosco, grosso, sem tato. Mas ao menos compreende que o abuso ao qual uma criança é submetida é errado em vários níveis, pois é apenas uma forma de satisfazer inclinações sádicas indizíveis dos pais, de violentar o corpo alheio, de deixar marcas de caráter ao normalizar o uso ocasional da violência e, nos casos mais extremos, de deixar graves traumas. Não compreender isso e reduzir a questão toda a frescura é dar de ombros ao sofrimento alheio e, pior, em não respeitar os limites da individualidade humana; por menos importantes que pareçam aos seus violadores, a voz que importa é a das vítimas, e no caso elas não possuem nenhuma. Esta lei é mais do que bem vinda. A autoridade dos pais é uma questão de conveniência para o bem-estar dos seus filhos, dependente de cumprir com certas funções definidas pela comunidade.
Se não protegemos nossas crianças dos seus pais, vamos protegê-las de quem? É justamente no lar, em que passam a maior parte do tempo, é que devemos lhes dar maiores garantias e 'voz', através da lei, para que se possam fazer respeitar. Esta lei é um grande avanço. Fora dela, temos a barbárie.
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