quarta-feira, 8 de junho de 2011

a vida privada dos políticos

Sempre que ocorre algum escândalo sexual de um político, a tropa de choque vem dizer que 'ninguém tem nada a ver com isso' e que 'a vida privada não deve influir na vida pública'.

Embora provavelmente bem-intencionada, essas prescrições são enganosas. Um político é uma figura pública. Tudo que ele faz diz respeito ao público. O único direito à privacidade que uma pessoa possui é aquilo que ela faz de forma anônima. Um político não pode reclamar de ter sua vida investigada e revelada ao público, não mais que um candidato a uma vaga de emprego precisa revelar sua vida pregressa ao seu empregador. Na nossa relação com os outros, a privacidade é perdida como forma de estabelecer confiança em quem somos.

Ainda mais se tratando de sexo e política. Por mais que tenhamos avançado nessa área, não conseguimos separar totalmente Estado e sexo. Ainda proibimos a cafetinagem e vemos as ofertantes de sexo como 'vítimas' e não como pessoas conscientes e decididas das suas escolhas. Num contexto mais amplo, procuramos salvar os indivíduos das suas próprias escolhas, seja porque a consideramos fruto da ignorância ou da vontade fraca do agente.

É irônico e trágico, portanto, quando um político se envolve num escândalo sexual. Afinal, são essas pessoas que aprovam leis que regulam nosso comportamento e que estão, em última instância, no controle e na vigília do que podemos ou não fazer. São esses indivíduos que estão incumbidos de nos iluminar e de evitar que caiamos em tentação.

A tendência a colocar os políticos além do bem e do mal, como os deuses gregos, é extremamente danosa. Se a vida deles deve ser protegida de julgamento, ou melhor, de execração pública, a vida das outras pessoas também deve estar protegida da mesma extensão. Na verdade, o escândalo ganha a dimensão de escândalo pela própria ideia de autocontrole perfeito que os políticos tentam vender. Essa ideia não é nova. Platão acreditava que os guardiães da cidade eram análoga à parte racional da alma humana. Eram, portanto, incorruptíveis e evitavam que o resto da cidade cedesse aos seus impulsos e desejos. Ainda vemos a casta política como os guardiães de nossas almas, ao invés de servidores falíveis como a gente que cumprem uma função importante, sem nenhuma suposição de superioridade ou fortaleza moral.

Façamo então um acordo. Ignoramos a vida privada dos políticos se eles ignorarem a nossa. Combinado?

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