segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Uma proposta para acabar com filas e engarrafamentos

A fila é uma forma ineficiente de alocação de recursos. Implica que a pessoa que chega primeiro recebe o bem ou serviço antes do que a pessoa que chega depois. Em alguns casos, quando a quantidade do serviço é limitada frente a demanda pelo mesmo, implica que alguém que faz parte da fila não vai conseguir obter o produto.

A fila é ineficiente, portanto, por duas razões. A primeira é que não necessariamente ordena o recebimento do serviço pela ordem de quanto as pessoas valorizam o produto. Alguém que pode estar no meio da fila talvez valorize mais o produto do que outro que está na sua frente. O tempo é custoso, em termos de custo de oportunidade. É verdade que, se espero na fila, é porque ainda valorizo estar lá do que fazendo outra coisa. Mas o excedente do consumidor é reduzido. E uma melhora de Pareto, a saber, poder pagar mais para evitar a fila, não é uma possibilidade.

A segunda razão para a ineficiência da fila tem a ver com a situação na qual o produto se esgota antes que você consiga obtê-lo. Nesse caso, o preço de mercado é inferior ao preço que equilibra esse mesmo mercado, pois, ao preço em questão, a demanda supera a oferta, e pessoas que valorizam menos o produto podem acabar por conseguir o produto, deixando de fora aqueles que estariam dispostos a pagar mais por ele. Isso necessariamente vai acontecer se a formação da fila for um evento aleatório, mas é ainda mais severo se imaginarmos que pessoas com renda mais baixa possuem um custo de oportunidade do tempo menor, e estão em geral dispostas a pagar menos por um bem do que pessoas de renda mais elevada. O excedente total do consumidor naquele mercado, portanto, é reduzido.

É sabido que, em determinado intervalo de tempo, existem filas consideráveis tanto para comprar bilhetes quanto para entrar no terminal das Barcas. Da mesma forma, o fluxo da ponte Rio-Niterói se torna intenso em certos momentos do dia. Ora, se é sabido que isso ocorre, a solução me parece simples: elevar o custo de usar o bem/serviço naquele ponto do tempo, de forma a (1) selecionar aqueles que valorizam mais o produto do que os outros, e (2) diminuir o tempo de espera para o uso do serviço. Inicialmente pensaríamos que um aumento de preços reduziria o excedente do consumidor, mas isso só é verdade para um mercado que aloca os recursos usando exclusivamente o sistema de preços. Se há fila, a elevação de preços elimina o excesso de demanda, selecionando quem deve estar disposto a pagar mais pelo serviço (e aqui podemos supor que o excedente do consumidor dessas pessoas é maior do que o anterior, visto que uma elevação marginal dos preços foi suficiente para retirá-los do mercado, ou seja, o benefício para eles era pequeno), além de elevar o excedente do consumidor ao reduzir o custo de oportunidade associado ao tempo de espera para usar o serviço.

E como se daria essa elevação de preço? Proponho o seguinte: um preço mais elevado para aqueles que comprem o produto no momento em que vão utilizá-lo. Por exemplo, vamos supor que haja um fluxo maior de pessoas para as Barcas de 18 hs. O preço da passagem atual é 2,80. Pode-se elevá-la para, talvez, 5 reais. Mas, no esquema que proponho, o preço das Barcas será 5 reais apenas no intervalo entre a barca que saiu e a barca que sairá. Se você compra o bilhete em qualquer horário anterior a esse, será cobrado o preço e 2,80. Uma vantagem do bilhete das Barcas é que ele não tem prazo para utilização. Esse sistema, portanto, incentivará que as pessoas comprem com antecedência seus bilhetes, evitando a formação de filas para compra de bilhetes na hora de maior movimento. Ou seja, quem não está disposto a pagar 5 reais passa a se programar para evitar o custo extra. E quem fará isso? Os usuários rotineiros do serviço, quem mora em Niterói e trabalha no Rio, por exemplo(o fluxo é sempre maior nesse sentido, tanto na ida quanto na volta). Para quem possui apenas uma demanda ocasional, será cobrado um preço maior que contém, por trás, dele, a pergunta: eu preciso realmente ir nesse horário? Algumas pessoas comprarão mesmo assim, outras esperarão a próxima barca. Poderia ser assim: para as barcas de 18 horas, cobramos 5 reais; para as barcas de 18:10, 4 reais; 18:20, 3 reais; a partir de então voltaria o preço normal.

Quanto à ponte, o caso é mais complicado, por duas razões: (1) só se cobra pedágio do Rio para Niterói e (2) o serviço é cobrado após sua utilização. Não há um controle, portanto, da hora de entrada na ponte, que é uma variável que está mais sobre o controle do motorista (embora não muito) do que a a hora de saída. Nesse caso, o que poderia ser feito é cobrar a mais do motorista que pague apenas um pedágio. Vamos colocar que o pico de utilização seja, por exemplo, entre 18 e 19 horas. Qualquer pessoa que chegue no pedágio durante esse horário será cobrado, digamos, 10 reais, ao invés dos 4 reais atuais. Mas ele tem uma opção: pagar o dobro do pedágio (8 reais), recebendo um bilhete para passar pelo pedágio no dia seguinte.Nesse esquema, quem utiliza a ponte no horário do rush terá que antecipar o pagamento do dia seguinte. A lógica é simples: só não se importará em antecipar o pagamento da ponte quem a utiliza com freqüência; além disso, quanto mais pagamento for antecipado, menos tempo será gasto para pagar o pedágio. Ou seja, vamos coordenar tanto os motoristas para utilizarem a ponte de acordar com a sua disposição a pagar de forma antecipada quanto diminuiremos o tempo de travessia da ponte ao diminuirmos a contenção que ocorre no pedágio.

Uma sugestão de arranjo: entre 18 e 19 horas, quem fosse pagar o pedágio (ou seja, quem não tivesse o bilhete), teria que pagar 3 passagens antecipadas, ou seja, desembolsar um total de 16 reais. Entre 19 e 20 horas, teria que adiantar 2 passagens antecipadas (12 reais), e entre 20 e 21 horas, 1 passagem(8 reais). Esse esquema valeria apenas durante a semana, exceto sábado e domingo, e os bilhetes não seriam válidos para esses dias.

Podem existir vários problemas de implementação das propostas acima, mas acredito que, no geral, os esquemas propostos são muito superiores à situação atual de filas, engarrafamentos e espera para utilizar um serviço.

uma proposta para aumentar a oferta de sangue

Atualmente, a oferta de sangue depende exclusivamente da boa vontade das pessoas. Depender da boa vontade é problemático em vários níveis. Mesmo que cada pessoa deseje que uma quantidade maior de sangue esteja disponível, nenhuma tem incentivo suficiente para ela mesmo doar, visto que a sua doação não faz diferença considerável no resultado geral e ela conta que as outras pessoas também doarão. O problema é que, se cada pessoa pensar dessa forma, a maioria acaba não doando, o que acaba por provocar, portanto, uma escassez de sangue frente a demanda pelo produto. O fato de que não doar sangue é uma informação privada de difícil verificação (você pode alegar que doa sangue e sua audiência potencial não tem como verificar a informação) torna a pressão para se conformar à regra moral de doar sangue menos eficaz.

A oposição a doar sangue através de pagamento monetário é grande. Portanto, sugiro um esquema que, embora não remunere diretamente, o faz através de isenção. Poderíamos estabelecer o seguinte: uma pessoa receberia desconto no IPTU para cada mês no qual doasse sangue. Acredito que qualquer destino que esse dinheiro teria através da prefeitura seria inferior ao resultado de aumentar a oferta de sangue disponível.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Podcast da semana

É possível que a religião seja uma crença racional? Comento aqui.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

pessoas importam?

Pessoas importam ou são meros detalhes na história? Pessoas importam no sentido banal de que, afinal, são elas que agem na história. A questão é a seguinte: até que ponto a história teria sido diferente tivesse aquela pessoa não existido?

Imaginemos alguém que é colocado numa prisão, sem comunicação externa com o mundo, nem mesmo com os guardas que o vigiam, e que ninguém com exceção daqueles que lá trabalham sabem da sua existência. E mesmo aqueles guardas, embora saibam que há alguém preso, não sabem quem é que está preso. E isso vai muito além de saber seu nome: não sabem seu rosto, sua história, suas idéias, seus desejos. A pessoa existe mas, com exceção de que ela ocupa um lugar no espaço e que parte da rotina dos guardas é direcionada a mantê-lo vivo, além de recursos com alimentos e acomodação, sua existência não altera em nada o mundo. A prisão não foi construida para abrigá-lo, os guardas teriam sido contratados de qualquer forma e o gasto em alimento é irrelevante quando dividido entre todos que pagam os impostos que mantém a prisão.
Parece que essa pessoa não faz diferença para como a história é feita. Mas por que não faz? Por conta das privações que sofre: ela é fisicamente privada, impossibilitada de se comunicar e isolada a ponto de não poder ser conhecida.

A limitação física impede que a pessoa aja quanto a uma série de assuntos. A falta de comunicação também impede que ela exerça alguma influência quanto ao que as outras pessoas pensam ou conhecem. E o isolamento a coloca numa posição que sua vida não provoque nenhuma comoção aos demais.

Pensamos na diferença que um Newton ou um Mozart fizeram, mas eles foram justamente colocados numa posição em que qualquer indivíduo talentoso poderia ter feito a diferença. Por que Newton é europeu e não africano? Podemos descartar a tese da superioridade genética, pois raças dominantes foram revertidas ao longo da história. E também podemos questionar que Newton apareceu num determinado momento da história do pensamento da física (se colocou no ombro de gigantes para ver adiante, como o mesmo disse), e que seus escritos não foram perseguidos e nem ele foi assassinado como poderia ter acontecido, por perseguição ou índices elevados de violência.