A fila é uma forma ineficiente de alocação de recursos. Implica que a pessoa que chega primeiro recebe o bem ou serviço antes do que a pessoa que chega depois. Em alguns casos, quando a quantidade do serviço é limitada frente a demanda pelo mesmo, implica que alguém que faz parte da fila não vai conseguir obter o produto.
A fila é ineficiente, portanto, por duas razões. A primeira é que não necessariamente ordena o recebimento do serviço pela ordem de quanto as pessoas valorizam o produto. Alguém que pode estar no meio da fila talvez valorize mais o produto do que outro que está na sua frente. O tempo é custoso, em termos de custo de oportunidade. É verdade que, se espero na fila, é porque ainda valorizo estar lá do que fazendo outra coisa. Mas o excedente do consumidor é reduzido. E uma melhora de Pareto, a saber, poder pagar mais para evitar a fila, não é uma possibilidade.
A segunda razão para a ineficiência da fila tem a ver com a situação na qual o produto se esgota antes que você consiga obtê-lo. Nesse caso, o preço de mercado é inferior ao preço que equilibra esse mesmo mercado, pois, ao preço em questão, a demanda supera a oferta, e pessoas que valorizam menos o produto podem acabar por conseguir o produto, deixando de fora aqueles que estariam dispostos a pagar mais por ele. Isso necessariamente vai acontecer se a formação da fila for um evento aleatório, mas é ainda mais severo se imaginarmos que pessoas com renda mais baixa possuem um custo de oportunidade do tempo menor, e estão em geral dispostas a pagar menos por um bem do que pessoas de renda mais elevada. O excedente total do consumidor naquele mercado, portanto, é reduzido.
É sabido que, em determinado intervalo de tempo, existem filas consideráveis tanto para comprar bilhetes quanto para entrar no terminal das Barcas. Da mesma forma, o fluxo da ponte Rio-Niterói se torna intenso em certos momentos do dia. Ora, se é sabido que isso ocorre, a solução me parece simples: elevar o custo de usar o bem/serviço naquele ponto do tempo, de forma a (1) selecionar aqueles que valorizam mais o produto do que os outros, e (2) diminuir o tempo de espera para o uso do serviço. Inicialmente pensaríamos que um aumento de preços reduziria o excedente do consumidor, mas isso só é verdade para um mercado que aloca os recursos usando exclusivamente o sistema de preços. Se há fila, a elevação de preços elimina o excesso de demanda, selecionando quem deve estar disposto a pagar mais pelo serviço (e aqui podemos supor que o excedente do consumidor dessas pessoas é maior do que o anterior, visto que uma elevação marginal dos preços foi suficiente para retirá-los do mercado, ou seja, o benefício para eles era pequeno), além de elevar o excedente do consumidor ao reduzir o custo de oportunidade associado ao tempo de espera para usar o serviço.
E como se daria essa elevação de preço? Proponho o seguinte: um preço mais elevado para aqueles que comprem o produto no momento em que vão utilizá-lo. Por exemplo, vamos supor que haja um fluxo maior de pessoas para as Barcas de 18 hs. O preço da passagem atual é 2,80. Pode-se elevá-la para, talvez, 5 reais. Mas, no esquema que proponho, o preço das Barcas será 5 reais apenas no intervalo entre a barca que saiu e a barca que sairá. Se você compra o bilhete em qualquer horário anterior a esse, será cobrado o preço e 2,80. Uma vantagem do bilhete das Barcas é que ele não tem prazo para utilização. Esse sistema, portanto, incentivará que as pessoas comprem com antecedência seus bilhetes, evitando a formação de filas para compra de bilhetes na hora de maior movimento. Ou seja, quem não está disposto a pagar 5 reais passa a se programar para evitar o custo extra. E quem fará isso? Os usuários rotineiros do serviço, quem mora em Niterói e trabalha no Rio, por exemplo(o fluxo é sempre maior nesse sentido, tanto na ida quanto na volta). Para quem possui apenas uma demanda ocasional, será cobrado um preço maior que contém, por trás, dele, a pergunta: eu preciso realmente ir nesse horário? Algumas pessoas comprarão mesmo assim, outras esperarão a próxima barca. Poderia ser assim: para as barcas de 18 horas, cobramos 5 reais; para as barcas de 18:10, 4 reais; 18:20, 3 reais; a partir de então voltaria o preço normal.
Quanto à ponte, o caso é mais complicado, por duas razões: (1) só se cobra pedágio do Rio para Niterói e (2) o serviço é cobrado após sua utilização. Não há um controle, portanto, da hora de entrada na ponte, que é uma variável que está mais sobre o controle do motorista (embora não muito) do que a a hora de saída. Nesse caso, o que poderia ser feito é cobrar a mais do motorista que pague apenas um pedágio. Vamos colocar que o pico de utilização seja, por exemplo, entre 18 e 19 horas. Qualquer pessoa que chegue no pedágio durante esse horário será cobrado, digamos, 10 reais, ao invés dos 4 reais atuais. Mas ele tem uma opção: pagar o dobro do pedágio (8 reais), recebendo um bilhete para passar pelo pedágio no dia seguinte.Nesse esquema, quem utiliza a ponte no horário do rush terá que antecipar o pagamento do dia seguinte. A lógica é simples: só não se importará em antecipar o pagamento da ponte quem a utiliza com freqüência; além disso, quanto mais pagamento for antecipado, menos tempo será gasto para pagar o pedágio. Ou seja, vamos coordenar tanto os motoristas para utilizarem a ponte de acordar com a sua disposição a pagar de forma antecipada quanto diminuiremos o tempo de travessia da ponte ao diminuirmos a contenção que ocorre no pedágio.
Uma sugestão de arranjo: entre 18 e 19 horas, quem fosse pagar o pedágio (ou seja, quem não tivesse o bilhete), teria que pagar 3 passagens antecipadas, ou seja, desembolsar um total de 16 reais. Entre 19 e 20 horas, teria que adiantar 2 passagens antecipadas (12 reais), e entre 20 e 21 horas, 1 passagem(8 reais). Esse esquema valeria apenas durante a semana, exceto sábado e domingo, e os bilhetes não seriam válidos para esses dias.
Podem existir vários problemas de implementação das propostas acima, mas acredito que, no geral, os esquemas propostos são muito superiores à situação atual de filas, engarrafamentos e espera para utilizar um serviço.