segunda-feira, 26 de julho de 2010

Civilização ou barbárie?

"A maioria dos brasileiros já apanhou dos pais, já bateu nos filhos e é contra o projeto de lei do governo federal que proíbe palmadas, beliscões e castigos físicos em crianças, conforme pesquisa feita pelo Datafolha, publicada nesta segunda-feira (26) pela Folha".

Estes dados não são aleatórios, apenas demonstra que um ciclo de violência se perpetua através das gerações. Quem apanhou quando criança passa a achar normal bater em seus filhos, muito embora ele, enquanto adulto, se recuse a aceitar que qualquer um bata nele. A normalização do abuso torna-se mais fácil quando se dá à vítima a chance de ser futuro algoz; neste cenário as crianças não tem voz, e os adultos que falam por elas não são os que apanham mas sim os que batem.

"72% disseram ter sofrido castigo físico -- 16% afirmaram que isso acontecia sempre."

A rotina do abuso, a violência como norma de conduta, o sacrifício do corpo como forma de controlar e subjugar a mente - não precisamos da figura do trauma para que se estabeleça o abuso. A marca fica na forma como as relações humanas são entendidas e negociadas. Um tapa no filho de vez em quando, um bofetão na mulher que não cala a boca, um soco no avô que não fica quieto...a violência é justificada em situações extremas, quando deveria ser justificada apenas como forma de coibir ou reagir à própria violência. Relações de dominação são assentadas pelo uso ocasional, justificado e 'moderado' da força.

Não é coincidência que neste mesmo país a prática do trote universitário seja ainda uma tradição, uma forma de 'integrar' os 'novatos' dentro de um grupo fechado. Este mesmo 'novato' se tornará um 'veterano' e aplicará as mesmas práticas humilhantes aos futuros 'novatos'. E o ciclo de violência e as relações de dominação se perpetuam.Os homens não se tratam como iguais, mas de acordo com o seu status associado que lhe dão poderes especiais sem qualquer freio ou contrapartida.

O Presidente Lula é tosco, grosso, sem tato. Mas ao menos compreende que o abuso ao qual uma criança é submetida é errado em vários níveis, pois é apenas uma forma de satisfazer inclinações sádicas indizíveis dos pais, de violentar o corpo alheio, de deixar marcas de caráter ao normalizar o uso ocasional da violência e, nos casos mais extremos, de deixar graves traumas. Não compreender isso e reduzir a questão toda a frescura é dar de ombros ao sofrimento alheio e, pior, em não respeitar os limites da individualidade humana; por menos importantes que pareçam aos seus violadores, a voz que importa é a das vítimas, e no caso elas não possuem nenhuma. Esta lei é mais do que bem vinda. A autoridade dos pais é uma questão de conveniência para o bem-estar dos seus filhos, dependente de cumprir com certas funções definidas pela comunidade.

Se não protegemos nossas crianças dos seus pais, vamos protegê-las de quem? É justamente no lar, em que passam a maior parte do tempo, é que devemos lhes dar maiores garantias e 'voz', através da lei, para que se possam fazer respeitar. Esta lei é um grande avanço. Fora dela, temos a barbárie.

sábado, 24 de julho de 2010

O paradoxo do liberalismo

O paradoxo do liberalismo é o seguinte: diante de uma herança antiliberal, o receituário liberal, embora propicie uma melhora de vida e uma mobilidade social nunca antes alcançada, recomenda que se respeitem as diferenças de status e hierárquicas oriundas do período pré-liberal, se as mesmas resistem ao teste do mercado. A argumentação é simples: para corrigir a herança pré-liberal, precisaríamos utilizar elementos claramente antiliberais, e estes mesmos elementos diminuiriam o grau de liberalismo desta sociedade. Ao mesmo tempo, não utilizar tais instrumentos perpetua uma distorção social que não é um resultado 'natural' de uma sociedade livre. Ou seja, se conserva a moldura antiliberal para que um quadro liberal possa ser pintado.

Mas quantas gerações são precisas para que tal quadro possa surgir? Nesse meio tempo, os elementos antiliberais herdados podem se tornar insuportáveis para os que sofrem com os mesmos. A alternativa que resta ao liberal, na sua defesa dos elementos liberais da sociedade, é mostrar como tais elementos ainda convivem com outros de hierarquia e status impostos, como por exemplo a renda auferida por empresários nacionais protegidos da concorrência internacional. Este, aliás, é outro ponto paradoxal do liberalismo: defender a correção moral dos resultados de mercado, ou seja, a posição entre ricos e pobres, quando a presença de uma série de intervenções governamentais dificulta que os indivíduos aproveitem oportunidades que, em outro caso, estariam abertas a eles. A defesa da figura do rico, que é impedido pelo Estado de ganhar dinheiro, obscureceu a defesa dos que poderiam ser ricos, e esqueceu que esses ricos obtiveram suas riquezas justamente operando num mercado cheio de intervenções que impediram uma ação efetiva de competidores potenciais.

post scriptum:

Toda doutrina política resulta em paradoxos, pois existe uma tensão irremediável entre a formulação prática da mesma e os resultados herdados e gerados por ela. Somente uma doutrina que se proponha a criar uma sociedade a partir do nada, ou seja, uma utopia, não precisa lidar com situações paradoxais, pois tudo é planejado de forma tal que situações conflituosas não possam emergir. O utópico pergunta primeiro se uma sociedade é desejável e somente depois se é exqüível; mas este nunca pergunta de verdade, pois apenas calcula se vale a pena implementá-la agora ou daqui a algum tempo, sem questionar de maneira profunda se a própria idéia de criar uma sociedade artificial pode ser racionalmente implementada, no sentido de poder ser posteriormente criticada.