sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Resenha de 'The Piper at the Gates of Dawn'

1967 foi um ano seminal na história da música popular, espécie de ponto de inflexão para o qual não havia mais volta. A experimentação e a sofisticação haviam chegado de vez, tomando as paradas de sucesso de assalto. E isso gerou também uma mudança quanto ao modo de consumir música. Se antes era esperado que a próxima música de um artista soasse como a anterior, ou que os sucessos de antes remetessem ao sucesso passado, agora o público havia se habituado com a sensação de descontinuidade e a busca pela inovação pretendida por vários dos grandes astros da música pop. Que isso tenha começado pelo rock é mero detalhe: 5 anos mais tarde, a revolução já tinha pego a música negra americana de jeito e subvertido a fórmula de sucesso da Motown(embora já em 1967 possamos sentir esta mudança, por exemplo, com o desenvolvimento embrionário do soul psicodélico por parte de Norman Whitfield).

E, na penca de lançamentos posteriormente reconhecidos e celebrados como clássicos, encontramos o primeiro álbum do Pink Floyd, ainda comandado por Syd Barret. Se é o melhor álbum de 1967 é uma discussão tola(como quase todo rankeamento musical). Mas eu arriscaria dizer que é o disco com o maior número de idéias por segundo. Há aqui a vanguarda humorística de um Frank Zappa, como em ‘Pow R. Toc H.’ embora, diferente deste último, tudo soe muito natural e sem forçar a barra. E experimentações que antecedem as loucuras de um King Crimson, como na viajante ‘Interstellar Overdrive’. E, claro, há um clima alegremente hippie que nos remonta a um sentimento mais próximo da psicodelia, especialmente a partir da faixa 8. Mas não é um pop psicodélico como The Zombies, por exemplo. Ao contrário, é tudo muito fragmentado e, mesmo que no fim faça sentido, demora um tempo para juntar os cacos, e as pontes que juntam o pote quebrado enriquecem a música de uma forma surpreendente. É um disco sem concessões, ambicioso, que soa COMO se tivesse feito ontem, e para um disco lançamento há mais de 40 anos, isso é um elogio mais do que suficiente. É preciso celebrar também a ótima remasterização que o álbum sofreu quando do seu lançamento em cd. Um trabalho impecável à altura deste clássico inesquecível.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

ROCK'N'ROLL, ROCK ou MÚSICA? - parte 1

'O que você gosta de ouvir?' Todo mundo já se deparou, alguma vez, com tal pergunta. Afinal o outro, enquanto pessoa que não se reduz a suas atividades, muito embora ela se traduza através das mesmas, é muitas vezes inatingível e um mistério para aquele que deseja conhecer alguém que não a si mesmo. E, embora no processo de auto-descoberta tendamos a nos afastar daquilo que fazemos, quando estamos por descobrir o outro, fazemos justamente o inverso e tentamos reduzí-lo naquilo que nos é mais conhecido. E uma das experiências mais universais do ser humano é certamente a música. Mas não a música que é apreciação solitária. A mesma está quase sempre cercada, de alguma forma, da presença dos outros. De fato, se imaginarmos que, na ausência de tecnologia de reprodução, a única forma de ouvir a música era (1)executando a mesma para si mesmo ou (2)sendo apresentado à mesma por outro músico. E, embora ainda haja espaço para uma experiência bastante intimista entre executor e receptor, na maioria das ocasiões a platéria excede, em número, aquele que se apresenta. Enfim, o ponto é que, mesmo se considerarmos que a apreciação da música se dá de maneira individual(no sentindo em que não há interação entre os membros de uma platéia durante a execução musical), não é possível negar que há, de alguma forma, uma apreciação que se dá de forma coletiva. Ou seja, a apreciação musical está embebida do compartilhamento de experiências. Há pessoas que se reunem, que se reconhecem em suas escolhas estéticas, que podem de alguma forma se aproximar uma das outras, das mais variadas formas possíveis. Bem se vê, portanto, que a idéia de consumo em massa, embora não necessariamente nos moldes atuais(tanto pela composição da chamada massa quanto pela forma como o consumo era encarado), é um fenômeno antigo. Logo, há na pergunta moderna apenas uma tentativa de resgate da mesma experiência vivida no passado.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Vida

Me falaram que viver era queimar etapas, atingir metas. Só não me disseram o que fazer quando ficasse para trás, esquecido lá no fundo e, quando lembrado, cobrado, questionado e até mesmo criticado por não seguir o caminho que era esperado. Me indicaram que viver era ser feliz. Só não me avisaram que precisaria suportar tantos momentos tristes, dias inteiros que não deveriam ver a luz do sol. Me contaram que na vida a gente acaba encontrando alguém. Só não comentaram que é preciso que o outro lhe encontre, e com tanta escuridão nesses dias tão nublados, quem pode ver sequer um palmo à sua frente?

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Uma pessoa

Uma pessoa que permanece apenas como idéia, que nunca se concretiza. O que evita, em parte, que a sua existência seja um fardo. Mas que, por outro lado, acaba fazendo com que a minha seja mais pesada. Por vezes fala comigo, por outras apenas imagino nossas conversas. É uma idéia que constantemente me leva às lágrimas, o que parece ruim, se não fosse uma espécie de alívio. Por imaginar que possa existir alguém assim, e por saber que, por alguns instantes, é real. Mesmo que seja apenas imaginário, e talvez por isso, dure mais que o mundo, e ultrapasse a própria vida. Será que valeria trocar tudo isso por um pedaço de realidade? E se tudo terminar em ruínas? Já me encontro sob escombros, será que resistiria a mais um acidente de percurso?

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Segundos

A rigidez do tempo só se faz sentir pelos momentos irrecuperáveis. De resto tudo é tão fragmentado que parece não ter continuidade. Segundos desconectados que nunca formam um minuto inteiro. Dias que se acumulam apenas para preencher o calendário. Um dia que passa sem saber que é dia, calmo pela ausência de consciência, sem frustrações pela sua finitude, sem ser esmagado pela sua pequenez. O tempo não se vê passar, apenas se esgota. E os homens se esgotam pela falta de tempo, e se desesperam pelo minuto que não se completa. Se viram para o segundo, mas já é tarde demais. Outro tempo para fazer passar o que não se deu? Mas até lá, será que ainda haverá tempo?

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Calçada

Quem é a pessoa que passa ao meu lado na calçada? Quais são seus anseios, desejos, aspirações? Que frustrações acumula até então? Como se sustenta? Que tipo de música escuta? Com que freqüência vai ao cinema? Gosta de ler poesia? Sabe falar outras línguas? Segue alguma religião tradicional? Se tivesse interesse, eu poderia seguir os seus passos e descobrir ao menos uma parte das respostas para essas perguntas. Mas, ao contrário de seguí-los, deixo que os passos se afastem e que a pessoa se perca logo a frente. Pronta para seguir uma vida que continuo a ignorar da mesma forma que ela ignora a minha. .

Receita

Como duas vontades distintas e independentes podem se combinar para que, pelo menos por um instante, sejam apenas uma? Há o modelo da submissão, que é uma vontade subjulgar a outra; e a solução do comércio, que é um acordo entre as partes, que no entanto permanecem independentes. Mas há certas relações que exigem uma cumplicidade que lembra a submissão, embora os indivíduos se entreguem por opção, o que nos remete ao comércio. É um compromisso que se desfaz quando há reclamação de independência, mas que não se cumpre quando não há respeito pelo outro. É um delicado equilíbrio que, quando conseguido, nos deixa numa zona nebulosa em que, se nos refugiamos em alguma espécie de contrato, é como se quebrássemos a confiança e ficássemos sós; e se abusamos da confiança, perdemos o outro pra sempre.

Quem tem medo dos Buzzcocks?

Impossível negar a influência punk no som ds Buzzcocks. Mas a banda era mais do que isso. As melodias simples, rápidas e diretas traziam consigo uma sensibilidade pop que não era encontrada em outras bandas semelhantes. E o vocalista da banda não berrava! Além disso, suas letras não exalavam raiva, ódio ou violência. Ao contrário, tratavam de frustrações tipicamente juvenis quanto a relacionamentos, ou melhor, à incapacidade de conseguir um e todo o desconforto que vem acompanhado desta incapacidade. Em certo sentido, os Buzzcocks antecipam The Smiths por pelo menos 5 anos. Deixo como exemplo a letra de 'Nostalgia':

I bet that you love me like I love you
But I should know that gambling just don't pay
So I look up to the sky
And I wonder what it'll be like in days gone by

As I sit and bathe in the wave
of nostalgia for an age yet to come
I always used to dream of the past
But like they say yesterday never comes

Sometimes there's a song in my brain
And I feel that my heart knows the refrain
I guess it's just the music that brings
on nostalgia for an age yet to come

Ah nostalgia for an age yet to come
Nostalgia for an age yet to come

About the future I only can reminisce
For what I've had is what I'll never get
And although this may sound strange
My future and my past are presently disarranged

And I'm surfing on a wave of nostalgia
for an age yet to come
I look I only see what I don't know
All that was strong invincible is slain

Takes more than sunshine
to make everything fine
And I feel like I'm trapped
in the middle of time

With this constant feeling of
nostalgia for an age yet to come

Ah nostalgia for an age yet to come

About the future I only can reminisce
For what I've had is what I'll never get
And although this may sound strange
My future and my past are presently disarranged

And I'm surfing on a wave of
nostalgia for an age yet to come
I look I only see what I don't know
All that was strong invincible is slain

Takes more than sunshine to
make everything fine
And I feel like I'm caught
in the middle of time

And this constant feeling
of nostalgia for an age yet to come

Ah nostalgia for an age yet to come

Nostalgia for an age yet to come
Nostalgia for an age yet to come

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Deixa eu brincar de ser feliz

Deixa eu brincar com o meu nariz.