quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

O lugar do amor na política

O amor enquanto palavra é traduzível de uma língua para outra, mas o conceito em torno desta palavra se modifica. A tradução de um termo implica em encontrar o termo equivalente em outro língua que cause no ouvinte a mesma idéia ou reação. Só que a idéia associada a uma palavra depende de quantas palavras rivais existam a se referir a tal idéia; há línguas mais ricas ou mais pobres para definir determinados objetos ou fenômenos(e as idéias que os representam). E a reação provocada por uma palavra depende, além do seu significado habitual, a ocasião na qual a mesma é utilizada, ou seja, depende tanto da biografia do ouvinte quanto do uso consagrado que os termos possuem. O uso consagrado se refere ao efeito pretendido pelo falante e a biografia define como o ouvinte reage. O falante pode dizer ‘você não deveria agir assim ao ouvir tal palavra’, supondo que o ouvinte tenha cometido um equívoco. Mas o próprio ouvinte pode julgar que, diante daquela palavra, ele reagiu de maneira apropriada. Esta é a diferença entre desconhecer as regras de etiqueta e não atribuir nenhum valor a elas.

Embora amor possa, portanto, abranger uma série de estados mentais, emocionais ou um conjunto determinado de hábitos, pretendo, neste ensaio, fazer algumas considerações em relação a uma idéia muito conhecida, ao mesmo tempo inspiradora e ridicularizada: o amor romântico. Tal amor se conecta com um movimento muito maior, que se expressa tanto nas artes quanto na filosofia, religião e mesmo política: o Romantismo. Interesso-me aqui pelo romantismo enquanto movimento político.

O Romantismo é comumente visto como um contraponto ao projeto do Iluminismo de reformar todas as instituições sociais segundo os ditames da Razão. Mas parece-me que o Romantismo é melhor entendido como irmão siamês do Iluminismo, no sentido de que ambos colocam o indivíduo como figura central da reflexão e da ação política. Diria ainda mais, o Romantismo ressalta o elemento subjetivista da individualidade, enquanto o Iluminismo tenta resgatar o seu caráter universal. Se o Iluminismo reina soberano no campo da reflexão política, o Romantismo abarca a maior parte manifestações práticas da ação política. Sem o Romantismo, o projeto do Iluminismo é estéril; sem o Iluminismo, o movimento romântico vaga sem rumo. É nesta tensão entre o agir sem reflexão e o pensar com hesitação que a política ocidental tem girado desde que a política tornou-se um campo de debate público.

Há uma certa divisão do trabalho político por conta da predileção da pessoa pelo Iluminismo ou para o Romantismo, que leva a um processo de autosseleção. As decisões são tomadas independentemente de serem consideradas pelos iluministas como sábias ou prudentes; basta que exista um grupo considerável e influente de pessoas que seja capaz de implementar o projeto pretendido para que a ação ocorra. E as reflexões políticas são feitas mesmo que os homens práticos ignorem por completo as conclusões dos filósofos ou as críticas que os mesmos fazem em relação ao que se faz na prática.

O agir é sempre um ato de reflexão incompleta. Não há um prazo suficientemente largo para que todas as considerações a respeito de uma tomada de decisão possam ser feitas, e nem possibilidade de avaliar e julgar os dados relativos ao problema. Toda ação é tomada levando em conta regras práticas que nos ajudam a decidir o que fazer diante de uma situação.

A reflexão é sempre um ato de ação postergada. As suas conclusões são válidas para qualquer tempo, ou seja, não se referem a uma situação específica, mas sim a uma situação padrão que, embora não se concretize, serve como ponto de referência para comparar as situações concretas. Só agimos diante de uma situação concreta e, como a reflexão se refere a uma situação abstrata, ela sozinha não pode ser motivadora de uma ação. Além de se referir a uma situação ideal, a reflexão é um processo que pode ser reproduzido por qualquer pessoa, enquanto o ato é sempre tomado por uma pessoa em particular. Ou seja, a reflexão é um processo reproduzível por qualquer ser racional a respeito de uma situação abstrata, enquanto a aça é uma atividade praticada por uma pessoa em particular diante de uma situação específica.

A relação entre o agir e a reflexão é complementar e contínua. A reflexão continua mesmo quando o agir é interrompido, e o agir pode continuar mesmo quando a reflexão, pelo menos a consciente, é suspensa.

Quando pensamos em como o agir e a reflexão se colocam em relação ao mesmo indivíduo, chegamos a um impasse. O agir é o ato mais subjetivo de afirmação de um indivíduo, é como ele se define e se diferencia diante dos outros. Embora a reflexão também seja um ato individual, ela possui um conteúdo objetivo que é reproduzível pelos demais indivíduos. É um ato de apelo universal, enquanto o agir só se coloca diante da biografia da pessoa.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Por que acadêmicos se importam com questões irrelevantes?

Acadêmicos se importam com questões irrelevantes na busca por paz de espírito. A realidade já é tão interpretada por aqueles que precisam agir diretamente nela que o senso comum acaba por permear pontos de vista firmes o suficiente para que idéias divergentes provoquem revolta extrema. Se você se concentra em questões irrelevantes, elas não geram nenhum tipo de revolta por parte das outras pessoas. Paz de espírito é valorizada por motivos pessoais e também por motivos intelectuais: é mais fácil produzir quando não se é interrompido por colocações idiotas a todo momento. Um assunto irrelevante seleciona um tipo melhor de pessoa e maximiza o volume de informações produtivas que a pessoa recebe. Quanto mais mundano um assunto, maior o volume dessas informações que nada acrescentam. A produção intelectual decai por ter que lidar com questionamentos cada vez mais desinteressantes.

Acadêmicos se isolam da realidade como forma de manter a sua sanidade mental e a sanidade de suas teorias, face as objeções feitas pelo senso comum. No longo prazo, o senso comum se modifica, inclusive pelas alterações marginais provocadas pelas teorizações irrelevantes. Então é melhor se concentrar nelas hoje do que atacar diretamente o senso comum.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Em defesa do simplismo

Ser simplista significa tentar explicar a realidade em termos menos do que suficientes do que aqueles necessários para alcançar uma explicação razoável. Ser simplista, parece, portanto, ser algo ruim. Mas, acredito eu, o simplismo é uma virtude.

E por que o simplismo é uma virtude? Simples (sem ironia): se partimos de uma teoria menos do que suficiente para explicar a realidade, somos forçados a preencher uma lacuna que é visível. Já uma teoria que é suficiente para explicar a realidade, não fica claro se isso ocorre por conta de uma coincidência ou de um motivo mais geral.

A objeção ao simplismo se dá por uma predileção pela complexidade. E por que isso? Novamente, a razão é simples: teorias complexas são de difícil entendimento e o mero esforço em entendê-las parece eliminar da conversa uma série de pessoas. Ou seja, a complexidade destaca a pessoa de todas as outras.

Além disso, a caracterização de uma teoria como simplista, sem apontar porque ela deve ser rejeitada, é meramente uma oposição estética e não intelectual.

O problema não é o simplismo, mas aderir a uma teoria simplista como se captasse a essência da realidade, ao invés de um mero chute que poderia ser alterado frente a novos dados.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Por que a definição de propriedade justa pela apropriação original é circular

Uma propriedade é justa se originalmente apropriada e passada de forma voluntária para outra pessoa. Mas nenhuma propriedade atual pode ser traçada até a apropriação original dos recursos. Alguns dizem que a propriedade atual deve ser mantida enquanto não existir prova de injustiça. Mas injustiça implica que o proprietário atual não é o proprietário justo. Portanto, a injustiça só pode ser reconhecida se pudermos reconhecer quando uma propriedade é justa. Só que não há prova objetiva da justiça de nenhuma propriedade atual. Então, não é possível gerar nenhuma prova de injustiça das propriedades atuais. Logo, a manutenção das propriedades atuais não pode ser julgada nem como justa nem injusta.