domingo, 24 de janeiro de 2010
'Where the wild things are'
sábado, 23 de janeiro de 2010
'Up In The Air'
‘Birth of a Nation’
Filme controverso, lançado em 1915. Pode-se dizer que a primeira parte, que se passa durante a Guerra Civil, é subjetivamente racista enquanto a segunda parte, que se desenrola durante o período da reconstrução é objetivamente racista. Mesmo a primeira parte pode ser salva pois, ao abordar o lado sulista, em nenhum momento o argumento racista é invocado, mas sim manifestado através da defesa do direito de secessão que, muito embora talvez seja defendido apenas como instrumento para manutenção da escravidão (se alguém propusesse aos líderes sulistas, por exemplo, o direito de secessão de seus escravos negros, eles certamente ficariam horrorizados), não é assim efetivamente entendido por seus personagens.
A segunda parte é objetivamente racista por pintar em tons positivos as ações da KKK, e por pintar um retrato cruel dos afro-descendentes. Mas mesmo essa leitura pode ser relativizada, pois ela faz sentido apenas quando confrontada com as conclusões historiográficas. Se entendermos que a ficção é uma zona de criação livre, onde o que talvez conte seja apenas a verossimilhança com a realidade (ou, numa interpretação menos estrita, exige-se apenas coerência dentro da história a ser contada, embora muitos autores também se utilizem de imagens incoerentes, mas em geral como retrato da própria interpretação ou atos incoerentes dos seus personagens), a segunda parte pode ser entendida tanto quanto uma descrição subjetiva do modo como a KKK via as coisas quanto como uma distopia racial ou história alternativa.
Como descrição subjetiva, a segunda parte faz mais do que sentido, mesmo que no fim concordemos que não se passa de um delírio. Como distopia racial, a história torna-se mais interessante; afinal o século passado foi marcado por revoluções feitas em nome dos oprimidos que acabaram por constituir uma nova classe governante e intolerante. Mais de uma vez é referido no filme a ascensão de uma ‘nova aristocracia’, o que parece indicar que, no fim, não há nada intrínseco em nenhuma das raças que explique uma situação de exploração, mas sim a estrutura institucional na qual as raças se relacionam. Tal ponto de vista, porém, perde força quando vemos que, no fim, a única forma dos brancos restaurarem a ordem é, de certa forma, limando os negros de sua voz. Ou tal desfecho pode ser entendido como uma visão muito pessimista das questões de raça (afinal, o pessimismo em relação à possibilidade de mudança de uma situação não significa que não se deseje que ela ocorra ou que não valha a pena se esforçar para conseguir que ela venha a existir).
Além de questões polêmicas quanto à interpretação de sua mensagem ou motivação (em relação à motivação, não tenho muitas dúvidas que há sim um componente racista; apenas sugiro que a interpretação do filme pode ser dissociada da motivação do autor, afinal a obra se torna uma entidade independente dos propósitos que estão na cabeça do sujeito; a motivação do artista pode, algumas vezes, nos ajudar a entender melhor sua obra, ao indicar elementos que antes ignorávamos ou que entendíamos sob outro ângulo; mas é apenas mais uma interpretação concorrente, cuja única vantagem em relação às demais é que o autor, por ser criador da obra em questão, pode nos mostrar exatamente porque construiu as coisas daquele jeito; a sua interpretação precede a criação, possibilitando que ele molde a obra até que ele a julgue como correspondendo à sua intenção; mas, após o seu término, a obra não é mais dele, e suas intenções podem ser revelar fracassadas e distantes do efeito pretendido; se apenas a motivação bastasse para a criação artística, não precisaríamos mais fabricar artefatos, apenas gravar as intenções dos autores, reproduzi-las e imaginar a sua realização na nossa própria cabeça), é um filme que surpreende, tanto pela sua carga dramática quanto pelo seu uso magistral da música, que pontua brilhantemente o decorrer da história. Incrível como, ainda na sua infância, o cinema já apresente tantos elementos.
Pode-se dizer que não há muita inovação na arte de se fazer cinema nos quase 100 anos que se seguiram a este filme. Em termos de realizações técnicas, o sentimento de grandiosidade transmitido pelas cenas de batalha, e os momentos de tensão provocados por perseguições e emboscadas nada devem às sensações causadas pelo uso da tecnologia em 3-d de Avatar, por exemplo. A imersão é a mesma, eu diria, apenas mudaram os meios necessários para que ela ocorra. Talvez pela minha sensibilidade maior em relação aos sons, mais do que a imagens, a trilha sonora deste filme mudo tenha me chamado mais atenção do que as cores vivas do feito tecnologicamente impecável do Cameron.