segunda-feira, 30 de maio de 2011

política e conflito

Há sempre uma tensão entra a Política e a política. A Política, com P maiúsculo, é uma teorização a respeito da organização da sociedade, enquanto a política, com p minúsculo, é a prática dos agentes na organização dessa mesma sociedade.

A Política sempre corre o risco de ignorar a política, no sentido de se esquecer que a mesma precisa ser praticada pra ser posta em prática. Por isso o utopismo inerente em boa parte da reflexão política. A já famosa frase 'a teoria na prática é outra' ilustra bem esse que problema.

O utopismo se encontra próximo com a ideia de unanimidade. Se todos concordassem a respeito de como a sociedade deve ser organizada, não existiria conflito e portanto a necessidade da política. A maior parte da reflexão política visa, portanto, a eliminar a necessidade de sua prática. E isso de várias formas: criando uma sociedade que combata as fontes do conflito, moldando o caráter das pessoas de forma tal que atuem de maneira distinta frente aos conflitos que surgem, etc.

Mesmo essas sugestões, no entanto, enfrentam um dilema: elas precisam ser implementadas numa sociedade imperfeita. Ou seja, precisam ser implementadas numa sociedade onde existe conflito e na qual o caráter é falho.

O marxismo gerou muita atração no último século justamente por supostamente superar essas dificuldades. O próprio conflito seria superado pelo acirramento dos interesses opostos de classe, e questões de caráter seriam resolvidas ao conectar o interesse do indivíduo ao interesse do seu grupo. As grandes fontes de atração teórica do marxismo, no entanto, se revelaram as suas maiores fraquezas práticas.

O liberalismo se opõe às grandes teorizações da Política ao tentar reduzir a mesma à política. Para o liberalismo, a Política é uma tentativa de resolver os problemas surgidos na política. É uma reflexão teórica que visa a solucionar uma situação prática.

O individualismo político do liberalismo pode simplesmente ser traduzido na observação que cada indivíduo é mentalmente fisicamente independente, no sentido de ser fonte última dos seus próprios movimentos e possuir intenções, aspirações, planos e desejos. Não apenas age no momento, mas antecipa situações futuras. Os indivíduos podem se reunir em grupos, mas eles mesmos são contingentes; já a realidade individual é dada, não pode ser negada. Mesmo o escravo continua existindo como indivíduo. O mesmo indivíduo pertence a vários grupos distintos, em diferentes níveis. A qual grupo o indivíduo pertence ou busca pertencer é uma questão prática, construída, e não simplesmente dada. A única realidade dada é a existência individual.

Há uma discussão antiga a respeito se toda ação humana é política. Num sentido teórico, sim, toda ação humana é política, pois modifica a realidade social na qual se insere. Num sentido prático, não necessariamente, pois nem toda ação humana visa a uma modificação direta dessa mesma realidade. Curiosamente, uma ação política, na prática, supõe um nível de reconhecimento teórico daquela ação, enquanto uma ação Política, em teoria, pode se dar de maneira inconsciente. Por isso as diversas teses de se 'despertar' para a política.

Mas é possível pensar Política sem que todo ato humano seja objeto da política. O liberalismo não deixa de pensar a sociedade como um todo. A sua diferença é que tenta estabelecer princípios quanto a quais atos devem ser objeto da política e enfrenta diretamente a questão da sua implementação.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

realidade

O que é a realidade? Somos tentados a igualar realidade com tudo que existe. Mas nem tudo que existe é real. Certas coisas existentes são imaginárias. Ou seja, existem apenas como ideias. As ideias não possuem realidade 'concreta'. Mas o que quer dizer tudo isso?

A realidade pode ser falsa? Se ela é falsa, não é real, mas aparente. Mas a aparência também não é existente? Atribui-se à Platão o raciocínio de que existe uma realidade mais essencial, verdadeira, e outra que é apenas aparente, imaginada e, portanto, falsa.

Esse tipo de discussão é confuso pela referência direta à realidade, sem problematizar o sujeito cognoscente. Consideremos novamente a noção de realidade. Ela se opõe a uma situação imaginada, uma ilusão. Uma situação real é diferente de uma situação imaginada pois a última pode ser modificada de acordo com a nossa volição, enquanto a situação real não pode ser alterada pela nossa vontade. Como diz Thomas Sowell, 'reality is not optional'.

A realidade é parte daquilo que percebemos e não está submetido ao nosso controle direto através da nossa vontade. Por isso a associação entre realidade e concretude, pois os sólidos são impedimentos físicos para nossas ações. Já as ideias podem ser alteradas pelo sujeito cognoscente.

Uma situação imaginada pode se conformar ou não à situação real. Em última instância, toda situação pensada é imaginada, que pode corresponder mais ou menos a uma situação real.

Verdade é uma propriedade de sentenças. Uma sentença pode ser verdadeira ou falsa. Uma sentença verdadeira é aquela que se refere a uma situação que é real. Uma sentença falsa é aquela que se refere a uma situação que é imaginada. [A ficção é a criação de uma situação imaginada que não tem compromisso com a realidade.]

Uma sentença é existente a partir do momento em que é formulada. Já a situação referida pela sentença pode ser existente ou inexistente. Se é existente, é real; se é inexistente, é imaginada.

Os dados do sentido são irredutíveis. Mesmo que imaginemos ter visto algo, a própria imagem que se forma pela visão é existente, muito embora o conteúdo dessa imagem possa ser inexistente, ou seja, imaginado.

Em suma, uma sentença pode ser verdadeira ou falsa se a situação referida é real ou imaginada. Os dados do sentido são existentes, da mesma forma que uma sentença, quando formulada, é existente, embora ambos possam ter um conteúdo falso.