O conjunto de crenças sustentado por uma pessoa possui origens heterogêneas. A missa do domingo, a aula de química, o artigo de jornal, o documentário da televisão, o livro do mês, etc. Acumulamos tanta informação a respeito do mundo e, mesmo assim, nunca parece ser suficiente. É impossível para uma pessoa verificar se tudo que aprendeu é verdadeiro.
Como as crenças gerais são formadas? Apesar das fontes diversas, o sistema educacional é fundamental, pelo menos nas sociedades modernas, para que o conhecimento seja padronizado. Mas isso ocorre em dois sentidos: o primeiro, de padronização ou alinhamento daquilo que é aprendido em idades mais baixas; o segundo, de produção e criação de novo conhecimento que é referendado pelos seus pares. Há um conhecimento especializado que é reproduzido na educação dos mais jovens.
A figura do livro-texto ensina aos alunos no que acreditar, mas não fornece as ferramentas para que eles alterem o conhecimento apreendido. Esse conhecimento social sedimentado continua sendo reproduzido e pouco é alterado pela educação superior, até porque a maioria não continua na academia, mas volta para a vida que tinham antes, com as outras fontes rivais de conhecimento.
Esperar que as pessoas possam ter uma opinião sólida a respeito dos assuntos políticos mais urgentes exigiria que elas possuissem a capacidade de mudar de opinião quando, no fundo, não possuem o conhecimento necessário para alterar sua posição a respeito dos assuntos importantes.
Por isso a discussão acaba por girar em torno da mudança de sentimentos e não de idéias. A crítica se foca na estética do argumento apresentado e não da sua validade. Por isso é tão comum atribuir motivos que levam alguém a defender um determinado ponto de vista, ao invés de testar a fertilidade em segui-lo.
Duas figuras retóricas se complementam e fecham o círculo. A primeira, do acadêmico sem alma. A segunda, do ignorante de bom coração. Segundo a conveniência do momento, o outro lado é qualificado como sendo um ou outro. Quando se perdem(ou não se compreendem) os argumentos, é mais fácil acusar o outro de não ter alma. É a revolta contra os postulados econômicos que limitam a 'inventividade' das decisões governamentais. Quando, por outro lado, uma posição é vista como correta, mas não temos defesa suficiente para ela, por não sermos especialistas, tentamos conquistar nossas adversários chamando-os de bem intencionados, mas ignorantes, ou, para pessoas menos educadas, de burros mesmo.
Curiosamente, os desastres políticos não acontecem por acadêmicos sem alma ou ignorantes de bom coração, mas sim por acadêmicos de bom coração e ignorantes sem alma. Estes estão pouco presentes na retórica política.
Os acadêmicos de bom coração acreditam que os seus princípios produzirão bom resultados e, por serem acadêmicos, muitas vezes descartam as críticas que sofrem como sendo fruto da ignorância. Mas, por terem paixão naquilo que defendem, também atacam a insensibilidade dos seus opositores.
Os ignorantes sem alma, por outro lado, ignoram os argumentos intelectuais por considerarem que os mesmos são animados por sentimentos sem valor. Se guiam pelo sentimento puro e simples e provocam estragos sem fim.
No fundo, ignorantes de bom coração são capazes de reconhecer a sua ignorância. E acadêmicos sem alma exploram com liberdade a conseqüência de suas idéias. O problema é quando o conhecimento é visto como fonte de salvação ou fruto da degeneração dos sentimentos.